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domingo, 26 de janeiro de 2014

A Morte de Votric Sunen - Capítulo 2


(A Morte de Votric Sunen - Capítulo 1? Aqui)

Votric, ainda perplexo pelo que acaba de acontecer, agradecendo o fortuito destino daquela bala, calcula a trajetória do projétil numa velocidade incrível - talento adquirido na academia - e consegue ver uma misteriosa silhueta - dada a posição do sol, não mais que isso - numa janela de um apartamento defronte ao prédio onde por pouco morre, não fosse a água em seu ouvido.

O presto Votric se pôs a perseguir aquela ameaça enigmática subindo as escadas do prédio na expectativa de ir de encontro ao atirador. No meio do caminho o ex-investigador sentiu a idade e começa a diminuir a velocidade, arquejando, em busca de um ar que parecia não estar ali. Frustrado e fadigado, chega ao andar onde viu a criatura. Saca seu revólver com as mãos trêmulas - resquícios ainda dos lances de escadas - e arromba a porta com o pé.

A sala, ou melhor, o loft onde Sunen se vê é um tanto quanto mórbido: uma luz vermelha bem fraca, as paredes negras cheias de recortes de jornais e fotos que pela pouca iluminação não conseguiu ver ao certo sobre o que eram. Havia também uns equipamentos de musculação, um saco de pancadas que parecia ter sido usado de forma contumaz, uma cama bem rústica, sem lençóis ou travesseiros, e um telefone. Votric levou três segundos para perceber todos os elementos da cena. E três segundos foi o exato tempo que levou para um homem se postar atrás dele. O ex-investigador sentiu apenas o cano em sua nuca da arma ainda morna do tiro que cuspiu agora pouco:

- Largue sua arma! - disse o homem em tom calmo, mas um tanto quanto intimidador.

- Calma, estou largando! - disse Votric, deixando o seu .38 no chão, percebendo a seriedade da situação.

- Vire-se, devagar!

Votric, virando-se lentamente, foi dando forma àquela silhueta de outrora que tentou lhe privar da vida. Era um jovem robusto, de cabeça raspada, com os olhos cheios de ódio, mas misteriosamente familiares para o nosso protagonista.

- Você finalmente morrerá por tudo o que fez, seu desgraçado! - as palavras do rapaz entraram nos ouvidos de Sunen como um alarme ativando o agente adormecido dentro de si. Votric, em tal caso, tinha duas opções, tendo em vista que se atracar com aquele homenzarrão não resultaria em nada que não fosse sua morte:

A primeira era a técnica da "Retaguarda Invisível". Uma estratégia com 50% de êxito. A tática se resume em olhar para detrás do seu agressor como se alguém realmente estivesse ali e gritar "Atira nele logo!" ou qualquer outro comando desses de atacar. Isso faria com que o inimigo se virasse para se certificar dessa possível existência salvadora, possibilitando uma investida sem tempo de um contra-ataque. Mas o ex-investigador não creditou essa alternativa, pois viu nos olhos do rapaz a obstinação e sabia que ele não acreditaria naquilo.

Então, apelou para a segunda opção, a psicológica, a "Bandido da Mamãe". Uma técnica com 80% de êxito quando usada nas condições certas. Consiste em gritar uma ordem com uma voz mais aguda, fazendo com que o agressor remeta por memória sonora aos seus tempos de infância onde uma matriarca rígida - seja a mãe, avó ou seja uma freira num orfanato - castigava o mesmo por ser uma criança teimosa. Gerando assim uma reação involuntária de parar o que se está fazendo instantaneamente. Uma técnica aprendida nas aulas de combate freudiano no seu tempo de investigador:

- Pare já com isso, moleque! - foi o que Votric gritou, quase que sem esperanças por nunca ter usado em campo tal tática. Mas, de repente, como que por milagre, como se o jovem tivesse tomado um choque elétrico, a arma escapa de seus dedos indo parar no chão.  Sunen sempre achou Freud um compulsivo sexual em suas aulas de psicanálise na faculdade. Mas a partir daquele momento era seu novo deus, aquele psicanalista tarado. "Masturbar-me-ei quando chegar em casa como prece", pensou. Aproveitando o ensejo, Sunen pega sua arma de volta se jogando ao chão, e dali mesmo dispara contra o "bandido da mamãe", atingindo seu peito, causando uma morte quase instantânea. Ele não queria fazer aquilo, mas não via outra alternativa.

Como investigador que sempre foi, começou então a investigar a sala à procura de pistas que o levassem ao seu arqui-inimigo Nolen Danrami. Já não sentia remorso por matar, por consequência do número de vezes que isso se repetiu. Percebeu que as fotos e os recortes de jornais eram todos relacionados à Nolen, ele próprio e ao evento que gerou a morte de Kasmen Lasvi, sua falecida esposa. Ainda atônito, enquanto tentava juntar tudo isso em sua cabeça, repentinamente o telefone naquele apartamento tenebroso tocou. E Votric atende:

- Quem é?

- Ora ora! Se é você quem está atendendo, então devo presumir que o homem que morava aí esteja morto, certo? - Votric Sunen sabia muito bem de quem era aquela voz. A voz que ele estava procurando ouvir: Nolan Danrami.

- Sim, ele está morto! Sua tentativa de me matar falhou, Nolen! E era tudo mentira sobre as bombas, não era?

- Hehe! Eu tinha de chamar a sua atenção de alguma forma. E quem disse que eu queria te matar, meu caro Votric? Este é o meu presente de Natal para ti. Você está exatamente onde e como eu queria que estivesse. A lei do homem mais uma vez se fez valer, dando prova de que estou certo em dizer que não estamos no topo de nada. Somos animais tentando se equilibrar em duas pernas e pensar. Mas não pensamos, Votric. Nos fazemos dos mesmos instintos de sobrevivência como qualquer outro animal. Mas é pior, pois regemos isso com voz e violência intencional e gratuita. Tudo isso para nos mantermos vivos, Votric! Estamos olhando para os reis em nossos umbigos e não percebendo que seremos rês de algo maior que virá...

- Deixa de falácia, Nolan! - interrompe o ex-investigador - Eu estou farto dessa tua filosofia barata de ímpio perante a humani...

- E se eu te disser uma coisa que fará você mudar as suas convicções, Sunen? - dessa vez quem interrompe é Nolen Danrami - Se eu te disser uma coisa que fará com que você finalmente concorde comigo?

- Não acredito que isso possa ser possível, Nolen!

- Mesmo se eu te disser que você acabou de matar o teu próprio filho?

(Continua...)

domingo, 15 de dezembro de 2013

Dos


Dos desnudos - Oskar Kokoschka

A ela, como se fosse aurora

Certo dia ela chegou em casa batendo as portas, queixando-se das conversas de ponto de ônibus. E só eu sei como ela odeia conversas de ponto de ônibus. É que sempre fica a tensão de que as mesmas podem ser bruscamente interrompidas, a qualquer momento, quando o ônibus chega. E as melhores partes invariavelmente ficam para a próxima, perdidas no tempo até um possível outro encontro. Por muitas vezes ficou sem saber do final das histórias contadas:
- Porra! Como eu odeio conversas de ponto de ônibus. Fiquei sem saber como o fulano (não lembro qual foi o nome que ela disse) se livrou de suas crises de ansiedade.
- Mas que merda, meu bem! Logo as crises de ansiedade que você tanto combate? Tenho um pronome de tratamento digno para o acaso: Filho da puta! - Exclamei.
- É, ele realmente é um belo filho da puta - disse ela com aquele bendito sorriso que só eu sabia por em seu rosto.
- Me abrace! - Pedido dela mais que outorgado por mim. Ratificado em nome de anjos caídos na noite aquecida por seus vícios. Reconheceria de olhos vendados aquele abraço. Não só por suas formas sinuosas e seu olor, mas essencialmente, pelo coração que batia tão forte quando de encontro ao meu que parecia esmurrar-me o peito como quem avisa o que existe alí.
É, ela era desse jeito. Quando a vi pela primeira vez, completamente embriagada numa mesa de bar, discutindo ferrenhamente sobre possíveis interpretações do que disseram seus heróis; eu, livre de qualquer preconceito analítico, à luz daquele ébrio olhar, senti minh'alma alforriada em seu brado mais ressoante, ecoando por cada quark do meu corpo num proselitismo mais que persuasivo. Desde então era ela, deus ex machina; a solução inesperada. O porquê enfim da minha história. Sine qua non da minha existência.
- Te amo! - ela me dizia. Dizia não, proclamava.
- Pfff! Amor? O amor está fazendo postdoc para entender isso aqui. - era o que eu respondia. E como sei que gostava disso...
E todos os dias eram assim, apesar dos soluços. Um susto bobo, um copo d'água. O caos era mais um caminho.
Entre( )tanto, como um sonho ela se foi, deixando aquele gosto amargo na boca junto a uma ereção matinal.

(...)

- Opa! Mas espere aí! Como assim ela se foi? O que aconteceu?
- Meu ônibus chegou. Fica pra próxima o fim desta...


http://eumechamoantonio.tumblr.com/

domingo, 10 de novembro de 2013

A Morte de Votric Sunen - Capítulo 1

Falling by Nick Cave & Warren Ellis on Grooveshark

Votric Sunen sempre odiara esta época do ano. A cidade toda se aprontava mais uma vez para o evento mais hipócrita e consumista por ele já presenciado. Todos adornando seus egos com guirlandas e pisca-piscas. Fazendo das noites um clarão eterno, queimando retinas e apavorando os insones como Votric.

Numa rara ocasião de necessidade fisiológica - problema que vem anexo a idade - ele percebe o relógio de pulso que tanto procurava esquecido no chão do banheiro entre as roupas sujas. Uma metáfora epítome digna de sua existência: Por mais que tentasse esconder entre as grossas camadas de ilusão, aqui representadas por trapos, pele morta, ácaros e manchas de sudorese, os ponteiros empurram inexoravelmente o tempo sem sequer saber se é hora. Estava velho; macróbio de uma era em que ser idoso nem ao menos significa sabedoria.

E em meio a uma ducha, sem a qual jamais conseguiria sair daquele quarto de banho - cagar e tomar banho é um TOC insuperável e até lhe dava um certo orgulho - o telefone toca; e como que premonitoriamente sua espinha se gela com a percussão estridente do aparelho. Era o seu antigo chefe chamando-o para um último trabalho, que ele já recusou de prontidão. Votric Sunen foi um agente de investigação, aposentado por invalidez. Mas aquele não era um trabalho qualquer, sublinhava seu ex-chefe, era sim uma ligação do subversivo Nolen Danrami que anunciava que se seu velho rival não aparecesse até a hora marcada em tal local, explodiria bombas postas em lugares públicos matando milhões de pessoas. E que assim o velho investigador escolhesse como seria o seu presente de natal. O superintendente ao telefone disse a Votric ter investigado e não encontrado bomba alguma, mas não se podia levar como blefe o que Danrami dizia.

Danrami era um bon vivant, mais jovem que Sunen, fazia da vida um capricho e abalroava quem quer que estivesse em seu caminho. Porém encontrou tanto de si em Votric que acabou fazendo do astuto agente um espelho e decidiu passar o resto de sua vida tentando provar a Sunen que o homem é mero animal brincando de humanidade. Experiência maior disso foi o sequestro da esposa de Votric, Kasmen Lasvi, e consequentemente sua impetuosa morte: Ela foi mantida durante meses em cativeiro, até que um dia Danrami prendeu maços e maços de dinheiro no corpo de Lasvi nua com bombas acionáveis ao mais simples toque nas notas e a pôs no centro de uma praça em um bairro paupérrimo da cidade com uma placa pregada em seu peito com o seguinte escrito: Se tocar neste dinheiro, ela morre, reles animal! O resultado final disso foi um bairro inteiro em chamas.

Aquele telefonema inquietou Votric Sunen ainda mais que a água que entrou em seu ouvido no banho e não conseguiu tirar. Aceitou ir de encontro ao seu nêmesis, é claro. A vingança é o júbilo do sem propósito. Encontraria enfim o maior de seus carrascos, alguém que não deveria ser chamado de humano.
O endereço já estava num papel em seu bolso. Sua vida se tornou um clichê policial e ele se incomodava com isso. Mas aquela água no ouvido!

No caminho ao rendezvous percebeu que não era mais o mesmo intrépido e incansável investigador de antes, a velhice havia atacado até a sua memória, pois não lembrava onde era exatamente o endereço escrito no papel - tendo em vista que em seus áureos tempos não precisaria nem anotar -  que ele já usou pra tentar secar a cavidade auricular obstruída. Resolveu perguntar do local a um jovem transeunte onde a estampa de sua camisa dizia: "Feliz Na... Ops... Capital!". O rapaz fingiu não ter ouvidos e continuou seu rumo. Votric pensou naquele instante que a frialdade das pessoas já é tanta que as camisas deveriam ter estampas somente nas costas.

Depois de muitas voltas, enfim, ele chega ao local do encontro. Mas antes do toque na campainha, a preparação psicológica. Ele se vê arredio durante um tempo. E quando levou a cabeça até a mão, na altura do ombro, na tentativa de dar pancadas para tentar se livrar daquele incômodo entupimento, ouviu um zunido como se algo passasse ao seu lado muito rápido. Ele reconhecia aquele som como ninguém. E ao perceber a sua frente um orifício antes ausente naquela porta, concluiu: "Foi um tiro! E acertaria em minha cabeça se não fosse esta maldita água em meu ouvido."

(Continua...)

Capítulo 2? Aqui

domingo, 1 de setembro de 2013

Endereço



Reminiscências são tudo o que ela tem agora, dirigindo o seu carro, a cara amassada pela noite inquieta de sono, tentando ainda se acostumar com a luz da manhã, ao passo que as gotas da chuva percorrem o seu caminho gravitacional no para-brisa. Coisas que lhe vem à mente relacionadas ao seu pai que mesmo em toda a sua rispidez arrancava-lhe sorrisos. Lembrou de quando era ainda menina e admirava o pai a fazer suas coisas como se ele fosse um deus consertando o mundo.
Recordou com a maior vontade existente de sua mãe, que mesmo não tendo ido à escola alguma, parecia ser a pessoa mais inteligente do planeta. E como certa vez, bravamente, ela espantou um besouro que adentrou o quarto cor-de-rosa de sua filha (perdoem-me o sexismo). Besouro - mais especificamente o escaravelho - a existência mais irônica e poética já conhecida por ela: rolar bosta orientando-se pelas estrelas.
A notícia em forma de correspondência sobre sua aprovação na universidade federal tinha uma prerrogativa espacial em sua memória. Queria abri-la na frente da família, mas não se continha, experimentando pôr contra a luz para ver o que havia dentro do envelope. "Passei. Adeus, adolescência!".
A universidade de fato foi um divisor de águas. Por sua beleza as coisas pareciam fáceis por lá. Era elevada a categoria de arte pelos colegas (L.H.O.O.Q.). Teve um caso com a professora de Espanhol I (sempre encontrou poesia em tudo o que fosse dito nessa língua) e paixões como a pelos dois amigos, concomitantemente, sem que eles soubessem um do outro e quando questionada, jurou de pés juntos que não, mesmo sendo atéia.
Mas paz para ela nunca gozou de graça, procurava "sarna pra se coçar". A calmaria e a monotonia eram coisas de gente velha que já não esperavam nada além da morte. "Mas paz é isso, não? Algo que apanhamos do outro por intermédio de uma coisa chamada relação. Se quero paz, eu pego a tua. Puro fisiologismo¨, uma vez disse ela numa discussão calorosa em mesa de bar.
E então a formatura, emprego. As responsabilidades lhe caíam às toneladas. Não havia mais tempo. Precisava viver como todos os outros, presa nesse movimento pendular, buscando aliviar as dores do caminho com viagens e placebos tecnológicos.
Sempre esteve em conflito interno por querer não se contradizer. "Mas isso é impossível, meu amor. Teoria e prática são amantes raivosos.", enfatizava o maior de seus romances, o homem que não mais conhecia. Chorou feito criança esses dias ao lembrar dessa tão estranha criatura, enquanto assistia a belíssima apresentação do poema do obsessivo-compulsivo. Pensou em desviar de seu caminho para o trabalho e passar na casa dele. Ele ainda residia no mesmo endereço. Endereço para o qual estudou por anos mudar seus problemas. A mesma rua de sua aurora, uma rua abarrotada por lojas de noivas que por consequência de um bombardeio tradicionalista, fundamentalista, colonizador, idealizava se casar como uma princesa Disney. Lembrança que a levava às gargalhadas toda vez que recorria.
E num irascível desespero por ver seus sonhos corroídos pela mesma pasmaceira que tanto se opunha, acendeu um cigarro, tragando a fumaça e o passado para o peito. Tudo parecia tão absurdo nesse momento dentro daquele carro. Decidiu pegar uma outra direção que não a do presente.
Chovia lá fora e o futuro agora era o que tinha nos bolsos da calça. Mas ela sorriu.
E nunca mais se ouviu falar dela.

"Afinal, qual é o valor da vontade quando o espírito está faltando?"

domingo, 28 de julho de 2013

Forks and Knives


"Tire o seu sorriso do caminho...


- "Meu amor, tenho planos para nós. O que há de vir é nosso. Nada pode nos desviar. Quero contigo casa, filhos, prestações. Quero dividir os problemas, as dores, somar as curas em sorrisos. Te quero perene, meu monarca de fábulas infantis, nessa piada travestida de vida que insiste em nos chamar de posse." Foram exatemente estas as tuas palavras, lembras?

- Lembro. Mas não acredito mais nesse sonho médio que desde a Roma Antiga fundamenta essa história. O futuro vai sendo brinquedo do sistema vigente, mantenedor de antolhos direcionados a propriedade seja ela matéria, seja ela essência. E a capitalização do amor, leia-se casamento, via de regra afagada por interesses eclesiásticos, receita com todos os itens a desvalorização do mesmo num salutar de cofres alheios. Quer-se o bem, meu bem, se é que você me entende.

- Mas que mal há nisso, construir o estereótipo desse status quo, já que não há mais nada além da carne? A revolução é a própria contrarrevolução moldada para ludibriar a dúvida!

- "A tradição é a ilusão da permanência.", Woody Allen foi quem disse.

(...)

- Lembras também que no início do nosso relacionamento me dizias que contavas as vezes que precisarias fazer as unhas, escovar os dentes, abrir as janelas... quantos banhos tomarias, quantos filmes assistirias até poder me ver novamente? "Este é o último pentear de cabelos até o encontro", era a frase que persistia na frente do teu espelho!

- É, dias que pareciam anos para mim. Mas a distância era o que nos mantinha sãos.


- Eu sei que insistes em ver essa letra escarlate em minha testa toda vez que nos encontramos. O que fiz foi por pura insegurança, eu sei, e nada define melhor (ou pior) mea culpa que isto!

- "As nossas únicas verdades são as nossas dores". Isso é Alphonse de Lamartine ratificando a minha existência.

- Crias na anodinia da nossa narrativa, não é?

- Sim. Eu cria em ti.

- Nosso desamor já fez aniversário, viste?

- Vi.

- Foi tudo tão célere e silente que nem percebi o tempo passar!

- Para mim nada foi tão custoso e gritante quanto.

- Tens razão, vai ver foi isso, demorei, deveras, para entender. Não te mostrei a minha nova tatuagem!

- O que é?

- "Se não a realidade que me cospe esse agora
   Sê então o fantasma que me assombra as horas". O teu poema que me escreveste!

- És louco.

- Eu sei!

- Bem, já peguei tudo, vou embora.

- Calma! Mas e o conjunto de talheres de prata que ganhamos de presente em nosso casamento?

- Enfie-os no cu. Adeus.


... que eu quero passar com a minha dor."



terça-feira, 25 de junho de 2013

Guardo Um Sorriso Pro Fim?

Eu sou raça humana. Não sei de orgulho, tão pouco amor.

É, hoje é difícil. Tantas meias palavras da vida nessa narrativa de leitura horizontal muitas vezes confundida com romances russos (inspira, expira). A vida imita a arte nesta tragédia que é se ver sempre pelos próprios olhos. Das torres de marfim se canta com tanta empáfia o hino da bandeira embebida de humor amargo (prisão kafkiana de epíteto existência). Xinga-se a calça alheia de causas curtas. Veta-se com os punhos direção enquanto é, impetuosamente, empurrado por costas quentes. É covarde o suficiente para ouvir. O grito de socorro é sempre o mesmo.
O quadro psicológico é fundamentado por Rorschach no papel sujo de merda. Se quiser cura dos desejos infames, a vacina é em prece. Enquanto deus está morto e o homem não sabe tomar conta do legado, o secularismo é sequer posto em pauta. Filosofia chega a lugar algum.
Ao passo que a história não conta, o sorriso é desamor.

O futuro é uma criança a brincar num parque onde o presente é rei.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Metamorfose Contemporânea

O mundo envelhece, muda e tudo o que foi deixado para trás supura na dor latente da evolução. Verteria o tempo se soubesse do seu fim? O amor é anacrônico; vomitado pelos homens de fé em seus anseios lascivos. A ciência, hoje o saber influente, esgarça as teorias de outrora para saber da prerrogativa celular de quem compra. A cultura é reproduzida in vitro. A diversão é paradoxalmente tediosa, perdida nos históricos hedonistas. O escapismo é tão alienado quanto a rotina. Só o sangue arranca aplausos no coliseu digital. Os caminhões, os carros... a humanidade anda em lento círculo autodestrutivo, de almas escamoteadas pela revolução tecnológica (Behemoth?). Já podemos mentir por entre as pernas. Os heróis tornam-se estéreis pelos transgênicos da Monsanto. As carpideiras ganham milhões. O calendário oficial agora é o do ano fiscal. E do nada vamos sendo reis, contemplando o cinzento céu do domínio, parindo proles do bem dotado capital.

Eu vi deus tropeçar numa imensa sala escura onde tudo o que amaldiçoava se tornava maior que ele próprio.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sono

 Life is not forever(yone)

O som do despertador, para mim, é sempre uma alusão a gemidos infernais. Odeio acordar cedo. O relógio grita a hora mais imprópria; a do atraso. Tudo é tão pouco perto do não visto. E será que verei, em meio as sovas do tempo que abre o olho roxo do destino, a vala comum dos nossos corpos mortais? Afinal do que somos feitos senão de sonhos finitos?
No caminho para o trabalho um homem brada dentro do transporte público que vê a multidão, mas se sente só. Ele ainda acrescenta que somos espécies sinantrópicas da nossa própria solidão.
O mesmo homem ao fitar o meu desgosto - estresse usual - me fuzila com seu dedo indicador e diz:
 - Enquanto você finge que me ouve, os cofres estão cheios de contradições, a educação não salva mais a alma do inquieto, os rombos fiscais são vistos inimigos maiores do desenvolvimento. Mas só te vejo aí, sentado. Julgo-te oco por vontade. Tu és mentecapto por comprazer. Um dia encontrarás a redenção da tua vida num tropeço de uma mesa de bar ou num beijo qualquer. Aí então, meu desalmado rapaz, tu estarás aqui em meu lugar.
E ele continua:
- Creias que eu seria o primeiro a defender a tua essência se eu pudesse vê-la. Foste plasmado por um deus carnavalesco e egoísta. Tu viste o pão folheado a ouro na apoteose? Tu vês as tuas mãos sujas ao pô-las na consciência enquanto esperas por súcubo - aqui uma livre interpretação - na noite, para te (t/d)omar a vontade? É, o amor deixou de salvar a vida, Neruda não faz mais sentido para você.
Conclui então o homem dando tapas em sua própria face:
- Acorda! É difícil. Vai ser foda. Mas vai ser! Pois eu sou também você, por quem os sinos dobram!
De mesmo modo me pego esbofeteando a cara, enquanto os sinos dobram, dobram... o despertador toca, toca... e eu não consigo acordar.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Falta da Falta


Os que me ensinam têm de me aprender

Quando falta energia na casa, todos vão para a varanda - longe da modernidade eletrônica que suga as baterias Zeitgeist do ser - observar o que estava escondido por trás de tanta tecnologia, ter aquela conversa que não se tinha há tempos com seus amores.
Não sei se é uma coisa endêmica dessa casa ou se todo mundo possui esse vestido que os cabe nesses momentos ímpares.
Se noite - Ah! - o rastro de prata que a lua deixa no mar lançava-os ainda mais compassíveis. E à luz de suas vulnerabilidades falam sobre a vida; o muito que ela dá, o muito que ela tira.
O pai relembra sua juventude onde o seu hobby predileto era no verão sentar em um banco de uma praça e admirar as senhoritas com seus vestidos floridos, compondo canções em nome das mesmas com o seu bom violão que hoje é só composto de muita poeira no canto do seu quarto. Declarações poéticas tais que por tabela ajudaram o jovem pai a conquistar a mãe num desses seus brios de romantismo.
A mãe reforça alguns de seus conceitos; que sob esse mesmo céu somos apenas um; que as catástrofes naturais todas são a própria natureza citando o divino para justificar seus atos; que nós humanos sentimos tanta culpa de sermos o que somos que prevemos um fim do mundo a cada passo; que temos almas de deuses em nossos corpos mortais e vai ver que a arrogância vem daí. "Pedimos a mão segurando-as pelo pulso". A hermenêutica da mãe sempre foi extraordinária, no entanto, ela só estava naquele momento com ciúmes das antigas composições do pai.
A pequena filha descobriu que goiaba em inglês é guava. Fato mais que suficiente para arrancar elogios de todos e um sorriso de seu rosto.
O filho reflete sobre amores tropegos e insolúveis: viu as marcas dos pés dela na parede próxima à cama. Disse que a função do conceito sobre ela é ditatorial, oprime qualquer outra. Falou também que o barulho que o assoalho da casa fazia quando a mesma andava por alí era distinto. "Ela deveria ter vindo com o aviso: Perigo, inflamável" - ressaltou o jovem. A mãe, sobre isso, disse da abstinência não ser química e sim anímica. E o pai qualquer coisa sobre escrever uma canção.
E a fleumática avó, que até então nada havia dito, tácita em sua resiliência, se apronta como quem proferirá algo solene - quiçá podemos imaginar um piano clássico ao fundo como trilha sonora. Todas as atenções voltadas para a velha senhora que já viu tanto de tudo. Ela olha para todos e, ao assentir com a cabeça, diz: "A luz voltou a essa casa!"
De fato a energia retorna e a gargalhada é uníssona.
Então, assim de ironia ausente - talvez amaldiçoada pela radiação do microondas - regressam todos aos seus afazeres dantes do blackout.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Por Mais Forte Que Seja

"Você tem medo de deus?
Não, mas eu tenho medo de você!"


Esse diálogo se põe logo após um intercurso sexual:

 - Hoje é ano novo!

 - Feliz aniversário, Mundo. Exceto para algumas culturas como a judáica ou a chinesa, por exemplo.

 - Nossa, como você é insensível!

 - Insensível, eu? Você se esqueceu de quando caminhávamos durante 15 minutos quase todos os dias por um ônibus à beira-mar por conta da vista?

 - Eu é que te forçava a ir comigo. A idéia foi minha!

 - Não importa.

 - Claro que importa! Vamos dividir um cigarro?

 - Eu não fumo e tu sabes disso.

 - O dia está lindo lá fora!

 - Lindo? Não compactuo com esta tua filosofia aristotélica.

Ela põe os cabelos atrás da orelha como quem se prepara para uma guerra certamente desacordada com as convenções de Genebra e Haia:

 - Você nem reparou que cortei os meus cabelos!

 - Não. Seus olhos precisam de legenda neste momento. Qual o seu problema?

 - O meu problema é o teu estado abúlico e evasivo!

 - É que o mundo não acabou.

 - Parece que o cinismo te abandonou por um instante! Você realmente acreditou nessa profecia antiga?

 - Não. Acredito no fim quando não mais houver tão bela distração como este teu corpo vivaz. Mas eu tinha uma parva esperança de como quem sonha com um brinquedo que o pai não pode comprar.

 - Eu te amo!

 - Não. Eu te amo. E acho que esse é o problema.

 - Como assim?

 - Talvez seja a diferença de idade, mas nunca me amaste.

 - Como não te amo? Sempre nos imaginei pelas ruas com os nossos filhos em bolsas canguru!

 - Suas expectativas românticas parecem tiradas de filmes e livros ruins.

 - Quanta jactância!

 - A beleza é vista com a fé que não possuis.

 - De onde vem tanta indocilidade?

 - 23 de junho, presumo.

 - Ah, esse maldito dia! Já não havíamos esquecido isso?

 - O ser humano parece se empenhar mais quando o projeto é a destruição. Uma vida para construir, segundos para destruir.

 - Já te pedi desculpas. Viramos essa página!

 - Não quando casas com outra pessoa.

 - Tem razão. Nos veremos outra vez?

 - Não serei teu amante.

 - Dispensamos os adeuses?

 - Sejas feliz.

 - Não serei!

Quando o relógio em cima do criado-mudo parte o dia ao meio, ela parte com tudo que antes fora inteiro e seu pensamento mais recorrente é sobre a prestação que quitará a casa de praia para o veraneio.

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domingo, 16 de dezembro de 2012

Compêndio

Com o perdão da repetição...

No início, assim sujeito, se vê a criatura. Matriz oca a se originar o conceito. A palavra engessa as idéias, limita-se a condição da imagem ao que o nome carrega. E você vai sendo inominável - inefável - pela fluidez de seus movimentos, pela vontade dos teus (an)seios, dando sinal na estrada das paixões. O hedonismo é carona no manifesto contra as amarras. É tudo que somente o teu corpo pode explicar. Pintaram um afresco teu no muro dos portentos.
Teus amantes, todos traídos pela internalização do teu pai - talvez Jung ou Freud tenham uma teoria melhor - seja mesmo ele cristo ou diacho, persignam-se em lágrimas salgadas e em soluços litúrgicos devotam ao teu templo nu.
Entretanto o Tempo, deus impassível e verdade, devorador da tua imortalidade define o espaço - do tamanho de um quarto onde divides o ar com teus troféus, arquejando sem efeito  - deformando tudo, outrossim, o teu sopro ontológico.
E na origem a imagem zomba do conceito mesmo sem a idéia da própria conclusão.
Não obstante, a letra sempre me puxa o signo quando apelo à escrita.
A tua diferença sustenta qualquer semelhança. E como pássaros que explodem ao chocarem-se com edifícios que antes não estavam alí, você reitera a minha existência.
E o fim é nada mais que o teu nome.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Rocket Science

peebleslab.com

Um cigarro que tentei fumar ficou aceso no parapeito da varanda. Daqui de onde moro é tão alto que posso ver as linhas vermelhas e amarelas que os automóveis encadeiam à noite, contornando a ilha que nenhum homem é por si só. John Donne e sua parte nesse todo imortaliza a necessidade do homem pelo homem. E eu te necessito, ó estrela de grandeza não constatada, de brilho invisível. O rosto é contraído pelo fulgor da tua passagem. Queria eu um coração de um suíno, pois além da semelhança e da possibilidade, ver-te-ia não mais que um algoz que da minha carne faz a tua refeição.
O amor perde a vontade em sua divisão. O definido é indefinido, pronominalmente um qualquer.
Conjeturo, às vezes, como uma cena de um filme, onde em plano sequência nosso diálogo é visto da perspectiva do resto do mundo numa praça - meros coadjuvantes do nosso momento - e eu digo que voltei porque vi naquela fotografia a lhanura do teu olhar à quem estava por trás da câmera no instante da captura. E como alguém que muito longe de casa xinga em sua língua-mãe de saudade, te beijo mesmo antes do close final. E os créditos passam despercebidos.
Deliberadamente deixo o cigarro cair da varanda, pois eu não fumo e a fumaça já me incomodava. Mas é que eu sempre achei fascinante o jeito como você fuma os teus.

Atenção! Texto em itálico. Segurem-se; inclinação piegas à vista:
Talvez a ciência dos foguetes seja menos complexa que a do teu amar.

domingo, 11 de novembro de 2012

In vino veritas est

Isso porque não temos...

Sempre achei saber da história, marginal à sina de velhos declamadores em balcões de bar. Saber das vidas contadas na aclaração dessa minha existência fátua, mise-en-scène, vivendo para colorir o meu sangue ralo. Homo sacer fugindo das leis do homem e de deus.
Como qualquer romântico, piegas em sua maioria, verso meus anseios pela mulher que me toma errante e me lança ao brio. Procela para os meus barcos em calmaria. Revela que toda a minha certeza não passa de um prazer lacônico. Como uma música que fala sobre coisas ruins e eu associo a sua soturna beleza aos meus melhores dias, você vem ser o paradoxo, vem com a tua sedutora indecisão ser decisiva. A redenção do pecador sem o martírio.
É que nessa voz tão cansada venho ouvir meu nome mais uma vez e sei que quando não de palavras me dou, nada sei dizer. Mas nesse e desse nada, niilismos à parte, vejo mais que tudo.
E que falem pelos cotovelos, até mesmo pelos joelhos se quiserem. Mas numa hora incerta, quando os ponteiros não disserem qualquer coisa, tirar-te-ei uma gargalhada, pois é ela quem aplaca a minha bomba coração.
E o meu hálito quente e mau cheirando à bebidas dirá tanto em tua nuca que os pêlos se eriçarão como se à procura da verdade que acabara de passar por alí.

E a história, sabe? Vai sendo o que você me contar.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Astronautas no Planeta Mármore


sábado, 6 de outubro de 2012

Sufrágio

O teu sorriso preso na garganta da paz

É chegada a hora e tens de decidir dentre as centenas. 501?
Porém existem dois, especificamente, que te saltam os olhos:
Um é um indivíduo mimético da vida comum - a preferência ecumênica - regido por uma hierarquia educacional, carregado de jóias e presentes - que ele trouxe de Paris numa viagem a negócios - prenhe de idéias fátuas. Um sujeito encômio para as mães, avós e sogras. O mais do mesmo em sua essência. Te promete o inimaginável a fim de granjear o teu voto.
O outro, neurastênico, famigerado por seu passado, de pretensões mais parcas, mas cheias de paixão pela mudança é o que mais condiz com os ideais que possuis. Ganha no corpo-a-corpo - isso tu sentes - nas retóricas; seus discursos inflamados são a assunção das células revolucionárias - todo coração - que te tomam ser humano. Todavia, julga-se menor que o outro por não possuir o capital necessário para investir em sua campanha de conquistar o teu voto e ser eleito.
Resilientes os dois, porém de opostas formas. Vêm para soçobrar tua calmaria, te fazer pensar sobre futuro, querer tender um lado da balança.
E a tua indecisão é um jogo político onde a tua história vai determinar quem escolherás. Por mais que suponhas que a escolha seja tua, nós já sabemos quem vencerá, não é mesmo, meu amor?

A memória eidética é o pior inimigo

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Meses

'Coração é terra de quem pisa.' Está na boca querendo reforma agrária.

Pareço indômito, vestido pelo tempo. Minha barba configura uma fisionomia quase filosófica, idônea; reprodução de velhos ídolos e suas vidas consumidas na compreensão das mesmas.
Parece que fui visto pelo olho fundo da tempestade e que agora posso remar às cegas sob a opulência cinzenta de um céu que esconde qualquer norte - sinto-me preso as essas intempéries que recentemente varreram a cidade, como se soubessem da necessidade.
Meu corpo tem a vivência da finitude, infinita em ignorância.
Sinto como pedra a tua história, contada na solidão, em meu estômago já habituado com a gastrite. Revira feito remédio em seu efeito. Alcança toda a minha sina como uma dose de veneno. Entorpece-me pelo vício da tua íris, o sistema nervoso é sua orquestra - ressalvo o vício de qualquer teor pejorativo.
Foi de tanto ouvir você bater o telefone enraivecida - não vejo simbologia maior.
Hoje exponhe-se os dentes para esconder o que traz a língua. E a felicidade vai sendo qualquer coisa que caiba nas mãos cheias de moedas - o livre mercado agradece!
A roupa, troco e fica velha, tão quanto beijos de amor. Mas o teu todo é perene, e nostálgico tal qual biscoitos com café.

Aquele solo, de trompete e trombone, no final de 'Vermelho' do Camelo com o passo novo que eu aprendi.

domingo, 26 de agosto de 2012

Chuva

Ecce Homo e piegas metáforas sobre a restauração do amor

Queria eu que a torrente dominical, em toda a sua representação gênese - essa brisa anímica que me bate - lavasse não só a semana que passou, com todos os seus pesos e rastros; mas também a tua insegurança que vela sobre o cadáver da nossa conclusão.
Se por um triz fomos, sem querer, tamanhos, perante o medo dos abismos medidos com os beijos de tantas ilusões, por que não acordar sobre uma corda bamba, enquanto a tormenta passa chamando tua vida pelo nome?
Se eu pudesse adjetivar, em um só predicado definir-te: Vontade seria. Pois isso tens pulsando nas artérias de um coração contumaz. Isso é o que me faz desejar não por singelas vias, mas por, quiçá, talentos latentes, pintar afrescos renascentistas representando a tua beleza; produzir concertos, nos moldes de Pachelbel ou óperas como Puccini - leigamente julgo-os referências - patenteando o meu anseio por ti; 'pelicular' cinematograficamente, com orações a Godard e Truffaut, as intempéries da nossa história.
Ao passo que nunca serei, mas sempre estarei sendo, faço jus ao meu relapso senso de direção e pelas veredas da tua incompletude me guio sem foco, olhando tanto para trás, me mantendo aos tropeços nas linhas tênues do teu querer, açodado, pelas poças que se formam do que mana da tua libido, arrebatado pelo que tua boca sopra para suster a minha memória fugaz.
Por tudo o pronome possessivo impera pelo ar, cordas vocais, língua. Vai tanto de encontro a realidade que é real agora eu me encontrar tão teu.
E que sobre esse céu cinza. 

Sinapses

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

As Trepadas Que o Mundo Dá


Não saiais por fim dos sonhos tantos quando a boca gela ao beijo desconhecido

Sim, o mundo literalmente dá voltas. A teoria do caos em sua definição circular. Inaudita a palavra de quem o viveu e sabe, por seu instante, os louros que abarca. Toma pelos olhos secos as proporções do horizonte.
Por psiquê, não se reconheça por tuas façanhas, mas sim por teus pecados! Segure essa mão esquálida rente a consciência e entrelace os dedos pela garantia da incerteza. Sim, pois o que move a exatidão é o medo do fracasso. O que move o teu amor é, simplesmente, não tê-lo.
Quem dera visão ao fulgor dessa beleza?  Não te cabe o que brilha na eterna excelência do querer?
A língua é melíflua, veneno afrodisíaco que entupiu coração crente. Canhestra a forma que a volúpia contorna. No vário se vê metamorfose, a pele é metáfora do dia em cordata com a noite. É cria da própria diferença - e assim vai sendo. É pauta a qualquer melodia. É dívida paga a qualquer sorte.
E assim, sob a tutela de um abajur amarelo, percola tudo o que já se vira antes; parece a sombra não querer perder o contato, parece a luz querer saber do que acontece por alí, enquanto a carne faz a sua festa cega de desejo.
E o mundo dá voltas, mas já dera tantas que isso parece ser só vertigem.

Pretirais em virtude de teus lençóis amarrotados

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Fora

Idiossincrática é a saudade. Parece casca de pão no céu da boca.

Um olhar fixo - sabe qual? - aquele em que você não consegue perder a atenção em seu instante, mesmo querendo. Quando se está em profundo pensamento, olhando para o nada. É como se os olhos fossem donos de si mesmos - até onde sei, isso não tem nome. Engraçado, todo mundo tem e ninguém deu nome - Esse era o meu estado, fitando, pela janela do avião, quando a comissária de bordo me perguntou qualquer coisa sobre uma barra de cereais.
Eu pensava sobre tanto naquele momento: sobre os jovens e os seus temores de seguirem os caminhos de seus pais e nisso, envoltos em um "círculo mágico", renovado compulsivamente, onde, amalgamados, em catarses coletivas ou não, são hedonistas práticos, eclesiásticos, doutrinados, do pó ao pó - nunca me dei bem com entorpecente que me obriga a me curvar perante o mesmo para consumi-lo. Parece fender alguma coisa além do próprio nariz.
Pensei também nos mal amados e suas línguas amargas; nas opiniões cegas dos amigos ao dizerem o que acham ser melhor para mim; nos próprios amigos; no linguajar coloquial do passageiro ao lado que viajava pela primeira vez e não conseguia parar de falar de tão nervoso; nos discos do Roberto Carlos e do Tim Maia que meu pai tanto escuta, contíguo as suas melancolias; na cozinha da minha mãe; no cheiro da caixa de remédios da minha casa que já me deixava melhor, de imediato, quando me sentia doente; nas pessoas que vivem as vidas dos outros, pois as suas próprias não são interessantes o suficiente; nos dias que passam depressa; nas minhas coisas e amores que ficaram para trás; no amor que temos do medo - para dançar um tango... - no quanto eu tentei mergulhar para fora da ilha e acabei por ferir o meu rosto na areia - a face desfigurada de quem por lá vive.
Me senti epicurista no sabor dessas coisas e aquilo tudo me tomava por todo. Foi o empirismo em sua sublimação. E como me encontrei alheio - fleuma - lá em cima: certezas renovadas, adrenalina intravenosa, o passo novo do pé cansado.
É, meu poeta! Que em tua terra a acrimônia seja das bebidas etílicas, que o álacre desperte os meus dentes. Que tudo isso que se desdobra, seja como o teu nome na pedra, como o teu nome em minha pele. Seja para alguém uma curva na linearidade da vida. Que seja endêmica a minha vontade. E que eu sinta. Pelos menos enquanto eu estiver por aqui.
Um sorriso de soslaio - sabe qual?

“Pelos caminhos que ando...”

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Barro, Costela e Pecado

Das histórias, eu só lembro do final.

[Porta se abre]

 Eu digo para ela:
- O problema sempre foi o início. As idéias embaralhadas na mente, prontas para escoarem, desaguarem o rio da melancolia na imensidão branca. O mar das letras por onde navegam tantas teses, hipóteses e antíteses; dúvidas. Certezas são tesouros latentes.
- Soubera da notícia de que García Marquez está sofrendo de demência e não mais escreverá? Nossos grandes escritores estão se esvaindo como água - tragam-me o mar desse horizonte - e os novos apenas sofrem a influência e com a fluência reproduzem, mas com qualidade inferior. Pois tudo já fora criado? As referências vão ficando apagadas e amarelas como velhos livros. E o nosso futuro vai parecendo cada vez mais com um papel em branco.
Mas ela nem quis me ouvir e fez logo do nosso quarto alcova para os olhos da noite, querendo, apenas, saber do rumo dos nossos dedos que beijam, umedecendo as vontades que só se acabam pondo fim ao mundo. E isso é demais para mim. Teu corpo é, cada quark, um feito da loucura, chama que queima a alma mais branda, nuvem carregada que não sai do céu e fica alí, se aprontando em miríades de formas que contorno com as mãos. Tua língua é viva estrela que aponta o meu nome. Te tocar é não querer me perder no espaço de cada pedaço e saber todos de cor - coração? E o sabor é de sina; o azedume do suor das nossas rotinas, temperado com o doce da volúpia. É castigo levado aos meus dentes preguiçosamente. Divido tanto o meu sorriso nesse instante que o tempo pára. Quem sabe é luz o que me orienta?
E ela se levanta da cama, se veste, caminha em direção à porta e me diz:
- Está aí a tua referência. Tchau!

[Porta se fecha]

O demente aqui sou eu.