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quinta-feira, 23 de maio de 2013

(Pra desopiar) Em Terra? Nunca, Jamais!







Alguns Segredos, algumas ideias ou pensamentos, por mais bonitos que sejam, não merecem jamais serem revelados. Então o poeta os organiza e os mete todos numa caixa - bem mais simples do que se pensar pudesse - para ali mofarem puros e belos. Que jamais venham a tona. Que não sejam divididos.



Assim não fosse é bem capaz que deles restasse pouco mais que cacos. Isso a ninguém agradaria e, pior, se desvirtuaria seu real propósito. Repara então no que não é bem dito, Paulo, apóstolo do amor e da dúvida. Que fique a palavra não catada, mal forjada como escória fosse, ali num canto a toar uma balada surdo - muda vinda de remota caixinha de música, ó João.




Qual mensagem para ninguém numa náufraga  garrafa em banco de areia qualquer. E que, egolatria e egoísmo em sua mais fina flor, o poeta encerre em si tudo o quanto colheu de mais absurdo, sonoro e furioso do espetáculo que é aquela vida que jamais viverá.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Colcha de retratos



    Porque mais alguns passaram sem parecer que eram 30. E outro mais se acabou sem quem dissesse "faltam ainda mais 10"  e o passado, encarado aqui de onde estamos, cheira estranho e alheio - como não fossem seus o mel e o fel.  Como se a outrem tocasse.

   A gravidade te prende ao chão. Ah! como era bom ignora - la! Mas nada que se conheça, uma vez guardado, se pode arrancar do esquema ao qual pertence: seu lugar na malha das parcas. Então guardo seus beijos mais molhados. Dobro os gemidos mais suados, o palpitar mais suave, seguido de inesperado espirro. Ponho tudo numa caixa que, um dia talvez lhe envie. Tenho o cuidado de não vincar o tecido que cosemos com unhas e dentes e pêlos.

   Os louros ainda esperam, sem saber que já ninguém lhes há de colher no encantado descuido de um bucólico pastor de ovelhas. Não há mais  espaço para romantismos, você sabe. Ao longe uma pequena ninfa sopra em desafino desgastada flauta. Belas odes já lhe acompanharam; dela, lindas melodias já brotaram, doces como o quê. Ou quase.


   Mas as notas agora só vem mesmo do burocrático relógio pregado na parede da cozinha. Conforme os tics convertem - se em  tacs, mais apáticos ficam os homens. Menos viçosas as mulheres, as coisas. Bem, as suas miudezas ficarão na caixa, já que não sei aonde ou como endereça - la. E servirá de apoio a despojadas vestes, em noites suadas e afoitas, embalagens de presente a se espalhar pelo chão do quarto.

Esse não é um poema de amor. Essa não é uma data especial. Esse não é senão o m'Eu lírico. E isso é a verdade, somente a verdade, nada a mais que a verdade.



Pode rir agora

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Quatro - dois



  Branca, branca, branca. As palavras não são minhas mas divido o torpor verborrágico de poucos sons e a hemorragia do Chico em todo seu estupor. Vivo agora flashes de toda minha vida repartida no espaço nu desse corpo lindamente angulado em meu leito. Não sei o que faço, ou como faze - lo. Sei tão pouco o tanto que me faz bem. Não estou triste, senão confuso. Também pudera...



  Estampado na pele traz - se o signo duma oração velha como a vida e repetida no calor monossilábico de lascivos cultos pagãos rendidos a uma divindade distante. Por muito pouco não tomo parte do que me apetece desse hino, sonho de Brahma. Frequência perene por breve que pareça e seja. Mil anos em um dia e um dia de cada vez, ah! Que assombroso é o amanhã! Bravo Mundo do Amanhã!



 Há grande medo do que não se conhece. Pois só se toca o hoje, que ele agora está aqui. Por hora é tudo. E  basta. Na picardia urdida em teu nome, com o qual brinco (sopa de letrinhas a desenhar teu DNA), repito em surto o curto som de você na minha boca, escorrendo na língua, descendo no peito até de uma vez vibrar teu gozo.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Transladar Revisitado


  A verdade no vinho é o prazer no álcool que, absoluto, te hidrata as feridas e que o juízo te acalma. Tudo   então é mais bonito, é mais viço e mais claro. Não que de fato seja e nem que a você de fato importe.

Quando o Mundo se aproxima da hora de girar para dentro do próprio umbigo outra vez mais, a sede do espetáculo parece secar te a garganta. Aí o que era tão fácil engolir, por pequeno e tacanho, te coaxa traqueia abaixo, arranhando - te ali onde ninguém pode ver.

*     *    * 


 Não careço de platéia mas aceito o teu aplauso. Teu abraço seco e frio. Teu cinismo puro e crasso.
Dou - te em troca meu quente regaço - tão oco quanto posso - em todo o muco que mereças me sorver extasiado. Pois que chupe, aos canudinhos, q os beiços molhe entorpecido, fácil.

*    *    *

Sei que nada mais se pode esperar, tudo é urgência! E eu aqui parado. Gira a vida, rodopia, as pernas trançam - se e o baile segue tocando. Ninguém ouve o dobrar dos sinos, mas eles lá estão. O pensamento segue embargado e os poetas cantam o sonho mudo da rotina em devassa. 365 dias lhe caem de novo sobre as costas com a velocidade efêmera do gozo. E é bom. O gozo sempre será bom, ainda que doa em pus e sangue. E tudo já começa de novo.


Não existem palavras bonitas ou feias. Lépidas ou fartas, no final, são só palavras 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O alfabeto de Vênus: Linhas gerais


Tracei uma linha. Uma reta ligando dois pontos na tela negra da noite escura. Não satisfeito fiz mais: outra, e então outra e, por fim, lia teu nome, silencioso e doce ali onde ninguém mais te poderia adivinhar. Minha onde eu e apenas eu, egoísta e solitário como sempre, te posso encontrar.


Sei que se apagará um dia, tão logo não possas mais mirar a luz que vem do frio distante e infinito que te dou. Até lá poderás divisar o que é teu, pois que para ti hei riscado, com meu olhar perdido e a ternura imensa e insondável do que agora sinto. Tão líquido e tão certo quanto o breu do espaço e tão teu como meu pensamento apenas. Preste atenção nessas linhas e há de me encontrar, noite após noite.


Minha angústia reside em saber que nada nem ninguém te poderá ensinar meu alfabeto;ainda que a ti entregue, te dando minha alma e a poesia minha sei que tomarás pouco menos do que a ti te toca. Talvez nem isso sequer. Mas pouco importa. Já pela manhã eu mesmo não devo mais encontrá - la, ofuscada na luz branca do cotidiano. Não que lá não esteja. Apenas não se pode percebe - la descalvada e bela como fora noite passada.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Soneto do Elefante


                        

                                                        Grande, espaçosa besta
                                                        Olhar cansado, velho
                                                        Na mente, sujo e belo
                                                        Vila num fim de festa
                                                        
                                                          
                                                        Onde vagou sua fúria 
                                                        No passo manso e curto
                                                        A pata sobre tudo
                                                        Todo estertor, lamúria
                                                        
                                                        
                                                        Qual desvairado Mouro
                                                        Toma gentil o espaço
                                                        Tornado estéril, morto
                                                        
                                                        
                                                        Traz na memória impressa
                                                        Forjada a tristeza
                                                        Essa cinzenta massa


sábado, 8 de setembro de 2012

Pedra Angular




De porto e mel germinado, quando infante todavia eras, sequer criados do barro erámos nós. Já nos guardava do alto, dividindo os ventos e divisando os astros quando avistaste a primeira estrangeira nave.

Nossos selvagens gritos ouviste, impassível; assistiu dentre nós os mais bravos a reconquistar seu espaço, se reerguendo quando pelos intrusos derribados. Ressurgiam entranhados em luzidio adubo. E era então a dureza do osso estampada no mais tenro holocausto da carne. Ressurgência árida de estranhado canibalismo.

Loiros como anjos e ambiciosos como o Diabo, como homens somente conseguem, arrotaram trovões e ergueram muralhas, fortes a te emular. Ora, bastaria um guspir de Netuno para que caíssem, castelos de areia que são, Morena rocha de Sol tingida, altar primitivo de nossos pais em sacrifícios entregues aos mais torpes Deuses.

Desenhar - te com letras pudesse e gastaria o poeta todos os dicionários, bíblias e Alexandrias. Certa vez sorvendo a baia, buscamos estreitar os braços, como se num abraço da gente coubesse. Mas não é possível, Colosso, monumento calcário a lembrar nossa infinitesimal pequeneza de homens, solitude infinita de ilhéus.


*      *      *


 Mil linhas mais ousasse eu traçar e inda assim não poderia toda tua sina cruenta conter, megalito Atlântico, doce e tosco obelisco sem pontas. Cozido em pardacenta olaria, se não profundo por sua geografia, sê em sua poética, qual minas de sal e coral selando a saga tua.

 Menir esculpido do sangue da terra e as ondas lançadas num jorro de gozo. Ali brotada a semlhança da natureza criadora, com rigidez de monolito e solenidade de tumba. És Plácido porque invencível, precioso porque invendável,pedra bruta, minério, pirita.

És Monstro marinho a repousar no leito onde deitado é velado por seus vales irmãos. Ainda que nada ou ninguém te possa partir, vejo nos veios congelados de tua mais perene base refletidas minha face e minha gente, cintilando sorrisos sinceros como quem paga em silêncio a acolhida e o afeto de um ente querido.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ave rubra


                                                     Voa, avae, aberta no ar
                                                     De penas vermelhas
                                                     Rubras de teu sangue
                                                     Um rubor sem vergonha
                                                     Cor de sangue e cinza
                                                     Tua filosofia de vida é vaga



                                                     Pra um mundo tão torpe
                                                     Um mar de gente egoísta
                                                     Cercado de narcisistas
                                                     Mundo de agoras, onde o tempo...
                                                     Ah, que é o tempo? 
                                                     Seja lá como for, não és escrava


 
                                                     És senhora, Dona. Ave que trina
                                                     Os olhos fechados, pra ir mais fundo, voa!
                                                     Voa, ave, avessa ao não
                                                     Pássaro sem futuro, voa!
                                                     Voa, que teu tempo é sempre.




sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Soneto de vagar pelas veredas


    O caminho simples
   É um caminho só
Onde vai devêz
    O que segue o Sol

      Verde ainda, muito
 Anda o pisador
   Vagueando junto
      Gozo, sangue e dor

    Por veredas passo
    Desatento ao todo
   Respeitando Nada

              Vou de encontro ao tempo
       Gasto, o quanto posso
 Ao sabor da Vaga


quinta-feira, 26 de julho de 2012

... E perdidos


Giovanna em mais uma das suas



Edificações suspensas na água, escarpidas em carpidos vales e a gente aqui na praça dando milho aos pombos. Como tudo o mais eles também passarão. Ou passaram já?

 Apenas a dúvida parece ser constante, perene enquanto houver quem acredite em tudo o que isso represente. Do firmamento aqui da terra sinto vir, nem sei de onde, o cheiro do Sal que traz consigo a imagem do mar como o princípio e fim de tudo.

Estou perdido porque busco.

Sou perdido porque vaga.

Enquanto isso for possível creio na imensidão com a fé que só mesmo a noção do Nada é capaz de nutrir.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Achados...



                                                         "Bateau Lavoir" em foto de Giovanna Faustini



  As memórias se confundem. Muito pouco se sabe do que é criado, do que é merecido, concretizado ou resignação. O que há de fato concreto ou o que é mera retroespectiva. Quase impossível dizer quantas mil vezes se pode ver uma mesma coisa de modos diversos com a distinção merecida, uma vez que infinitos são os olhares passíveis de se emprestar.

  A dúvida é o quanto há de seu na cidade, traduzido em cantos, igrejas, mercados e almas. Essência pormenorizada de espaço inserido no tempo (razão sem propósito) a ebulir por cada pedra, poros da pequena ilha que é cada uma de nós. 


   Verbos participam (sem saber) dessa oração, mantra em zumbido intermitente a que já não se pode dispensar mais atenção. Engraçado notar, mas quanto mais banalidade mais parece se velar o homem.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

De artíficio



 Luzes espocam barulhentas diante de seus olhos que miram o céu (mesmo sabendo impossível tocá - lo).
Sente - se o cheiro sutil daquilo que se sabe o que é mas não se pode evidenciar. É que é tudo tão breve, tão pouco perene. Quem liga? Quem se importa com a série de reações a se deslindar quando diante dos seus olhos existe tanta maravilha? Tudo é beleza, por mais que queime.


  Que assuste. Fascina. As crianças, esses velhos de ontem, a tudo assistem em tom de espetáculo. Elas é que no fim tem razão. A noite em suas curtas horas é linda e longa, e sem espaço para pausas em sua intangível infinitude. E há fogos no céu.

domingo, 3 de junho de 2012

Feito tatuagem


 Teu carinho frio em minha pele é algo que não quero ter. Mas não posso evitar, nunca terei folga de você. Me retorce o senso tua rigidez de cadáver, paciência de angústia. E quando me chega ao ouvido teu clamor, estampido seco de repetição, mescla no peito o alívio com a crueza estranha desse assalto.

 Sinto correr um sangue que não é meu. Meu tão pouco é o gemido que ouço abafado entre teus quentes beijos. Vivo cenas de um filme, e o mocinho pouco ou nada ganhará no final.
Tateando minha cama a buscar - te, acordo encharcado entre os lençóis. Tudo por saber que mudou minha vida e já não há o o que eu possa fazer. Meus amigos me estranham, os familiares se assustam e sei que cego confio só em ti. Não que devesse, só não vejo outra escolha. Não vejo saída.

 Peço a Deus pra que um dia possa de ti me apartar, mas Ele nada me fala. Mais e mais sinto nojo de nossa torpe relação, pois que se me acolhes é que sabes: Não há em ti vida sem mim, enquanto és mero objeto. Até quando, é o que me pergunto. Mas não me diz nada.  

sábado, 12 de maio de 2012

O Norte da Lua


Há tempos não sabia o que era estar em casa. Esse zumbido, os cachorros latindo lânguidos e preguiçosos noite adentro, apenas fitando o vazio.

Parece até que a noite me pertence, ou será o contrário? Nem sei. Essa lua, essa cerveja...
Essa camisa não é minha. Essa camisa é a sua? Essa bandeira mal desfraldada, esse estandarte roto e puído?

Acontece é que lido sempre com o que é provável, por mais descabido que possa parecer. Sente isso, amor? Apenas se cale. Você é tão bonita!

Fauvismos a parte, todos sabemos: Mulheres que calam sabem de cor as tragédias que invocam.

sábado, 10 de março de 2012

A Artemis





De tudo quanto brilha na noite, nada ofusca mais que Diana. Em seus tons dourados espalha, clara, o cinismo de quem te ri o riso largo e rasgado numa hora pra na seguinte virar - te a face.



Se, somente se (cabe aqui algum pensamento de ordem lógica?) te faz por ela se acarinhar, certo é, pobre louco, para mais fácil te devorar. Por isso tão gorda, redonda matrona.






* * *




Tudo para ela é Prata, não te enganes. Nauseabunda e lívida vive de cercar - te e ainda crês nisso um sinal de submissão. Ora não sê tão insano, caro amigo! Que de longe controla a caçadora, muiraquitã ao colo, cada passo e todo ciclo. Vestida de preto é ainda mais bela e perigosa, a Dama do Brumário.



Ria, pois, amada minha, minha amante. Ria da minha demência. Sou presa fácil de Selene, Cíntia... Como todo homem, sou tua caça.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Espectro


Deambulando por avenidas largas, no ritmo lento de quem não tem muito aonde ir, vê - se descabido quixote arrastando seus metais: indolentes lamúrios em angustiante sinfonia. Pois segue invisível nosso maestro ao som de buzinas e sirenes, alheio a todos os presentes.

Em verdade digo que não fosse a nuvem de dejetos que forma a passagem desse fátuo ente, nenhum vestígio de sua pífia existência ficaria para trás a evocar sua triste condição de morto em vida. Segue aabrindo caminhos (destino incerto) com sua carruagem de sonhos foscos onde é ele cocheiro de si mesmo. Transita entre mundos que nada lhe dizem. Nada têm a lhe oferecer além da escória... não lhe dizem respeito.

domingo, 13 de novembro de 2011

Palavra


Palavra atirada abala,atinge, fere e quando lançada, não volta atrás. Por mais que seu Eco desapareça no tempo, seja a boa palavra ou qualquer uma outra, uma vez mirada no coração não se perde ou se perdoa.
Lhes dou minha palavra mais que de homem, palavra de Poeta.

sábado, 29 de outubro de 2011

Reis (in: ) Satisfeito


Quero tudo o que não me pertence, porque o que é meu já não me basta. Deem me o Mundo, deem me Gaia, deem me Ela numa bandeja de prata. Me joguem aos leões se preciso - pouco me importa.

Das cinzas do meu cigarro vem me o gosto pouco doce da vida, e como é bom, não? Inspiro e trago pra dentro tudo quanto aspiro, todo oxigênio e grandeza de uma paisagem onde me insiro mas não caibo.

Sim, sou da vida, por mais que ela me negue. Não suporto o peso da terra e talvez por isso, mirando a Lua, queira içar me pra junto dela. Perco, logo insisto.