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domingo, 21 de setembro de 2014

Cônscio

Terpsichore - Jean-Marc Nattier
Loveology by Regina Spektor on Grooveshark

Apesar de você.

Nessa história de tentar ser feliz, o coração bate por sorte. Sofre um bocado na mão do destino que sempre deixa crescer as unhas para nos cutucar as feridas. O meu, coitado, no mais breve e desventurado instante se viu escolhendo a cor do esmalte.
Saudade, errei o teu nome pelo dela! Aquela nostálgica e avessa a rotina, que me enruga a testa no inesperado e que me amolece os ombros no fracasso. Tem o medo amordaçado no porão e a liberdade no quintal, lá fora. Ela é Midas que toca na alma, o abraço seguro no pior dos tropeços, o gole mais ébrio do dia maçante, o riso mais frouxo no mais tenso dos momentos. É piada sem barreiras morais, desespero que alcança socorro, é convite para noites das quais o gozo tem mais gosto de gozo.
Ela é a segurança de um sono profundo, meu passo que não olha pro chão, o tempo que nos espia da janela e atrasa os segundos, é vilã e heroína de um filme que não sai de cartaz no meu peito.
Aquilo que se esquece não precisou existir. E assim você vai existindo. Pelo meu último suspiro, pelo sorriso guardado para um retorno teu.

Ao pesar de você.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Dos


Dos desnudos - Oskar Kokoschka

A ela, como se fosse aurora

Certo dia ela chegou em casa batendo as portas, queixando-se das conversas de ponto de ônibus. E só eu sei como ela odeia conversas de ponto de ônibus. É que sempre fica a tensão de que as mesmas podem ser bruscamente interrompidas, a qualquer momento, quando o ônibus chega. E as melhores partes invariavelmente ficam para a próxima, perdidas no tempo até um possível outro encontro. Por muitas vezes ficou sem saber do final das histórias contadas:
- Porra! Como eu odeio conversas de ponto de ônibus. Fiquei sem saber como o fulano (não lembro qual foi o nome que ela disse) se livrou de suas crises de ansiedade.
- Mas que merda, meu bem! Logo as crises de ansiedade que você tanto combate? Tenho um pronome de tratamento digno para o acaso: Filho da puta! - Exclamei.
- É, ele realmente é um belo filho da puta - disse ela com aquele bendito sorriso que só eu sabia por em seu rosto.
- Me abrace! - Pedido dela mais que outorgado por mim. Ratificado em nome de anjos caídos na noite aquecida por seus vícios. Reconheceria de olhos vendados aquele abraço. Não só por suas formas sinuosas e seu olor, mas essencialmente, pelo coração que batia tão forte quando de encontro ao meu que parecia esmurrar-me o peito como quem avisa o que existe alí.
É, ela era desse jeito. Quando a vi pela primeira vez, completamente embriagada numa mesa de bar, discutindo ferrenhamente sobre possíveis interpretações do que disseram seus heróis; eu, livre de qualquer preconceito analítico, à luz daquele ébrio olhar, senti minh'alma alforriada em seu brado mais ressoante, ecoando por cada quark do meu corpo num proselitismo mais que persuasivo. Desde então era ela, deus ex machina; a solução inesperada. O porquê enfim da minha história. Sine qua non da minha existência.
- Te amo! - ela me dizia. Dizia não, proclamava.
- Pfff! Amor? O amor está fazendo postdoc para entender isso aqui. - era o que eu respondia. E como sei que gostava disso...
E todos os dias eram assim, apesar dos soluços. Um susto bobo, um copo d'água. O caos era mais um caminho.
Entre( )tanto, como um sonho ela se foi, deixando aquele gosto amargo na boca junto a uma ereção matinal.

(...)

- Opa! Mas espere aí! Como assim ela se foi? O que aconteceu?
- Meu ônibus chegou. Fica pra próxima o fim desta...


http://eumechamoantonio.tumblr.com/

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Toda prosa



  A poesia está onde habita a vida. E muito, muito mais além. Sei que acima de tudo está aqui, e em tudo o que toque a bela, escura tinta do seu olhar. Em cada som mastigado por essas cavernas pequenas de tuas delicadas orelhas. 


   Também nas doces olheiras onde, as memórias encerradas, desenham a maquiagem delicada da viagem que não houve (mas para a qual te preparastes com esmero). Tuas sempre irresolutas decisões. Teu destino ainda por alcançar. Cada palavra vaga flutuando no espaço silencioso do caos que te abraça, e é mui doce o frescor de cada palavra inventada só pra te definir. Muito mais ainda, em toda a ternura que te cerca. 

          
   Mesmo na mais aguda dor, toda tua altivez, vinda como que do teu peito de fêmea apenas possível e para a qual não se soube ainda criar adjetivos, me alcança e emudece. De que valem afinal as palavras? Eis então que abrindo os olhos não mais te vejo. Como ausente estás e qual doente soluço, sem ar. Teu toque macio e gentil me alcança e eis que em meu peito, aliviado, o coração estanca. 

                                                                     *     *    *

   Vejo mais amor nas ruas, nas placas, nos carros. Mais alienígenas e alienados. Julgo estar em paz. Mas afinal, que homem pode em sã consciência ser juiz de si mesmo? Ouço da sala tua aura serena e antecipo em sorriso que estou nos domínios de teu sonho (Tão sereno teu semblante).

   Pois de tudo me impressiona que dentre tantos loucos e tantos santos, muitos bravos e algum, claro, covarde, foi a mim que escolhera. E a mim te cabe cantar, numa balada retumbante para que saibam todos os covardes, todos os bravos, os santos, e ora, claro, cada louco que a mim me tocas. E é minha tão somente a obrigação de reparti - la em sorrisos e beijos. Como se a cortasse c'os dentes e cuspisse a terra a semente donde hão de vir teus frutos. 

   Temo não ser capaz. Mas te olho, branca Penélope repousada a esperar por mim e então eu sei que tudo posso. Fortalecido me debruço sobre ti e abraço minha vocação. E quando caio em si, percebo: Estou mais eu do que nunca.



domingo, 1 de setembro de 2013

Endereço



Reminiscências são tudo o que ela tem agora, dirigindo o seu carro, a cara amassada pela noite inquieta de sono, tentando ainda se acostumar com a luz da manhã, ao passo que as gotas da chuva percorrem o seu caminho gravitacional no para-brisa. Coisas que lhe vem à mente relacionadas ao seu pai que mesmo em toda a sua rispidez arrancava-lhe sorrisos. Lembrou de quando era ainda menina e admirava o pai a fazer suas coisas como se ele fosse um deus consertando o mundo.
Recordou com a maior vontade existente de sua mãe, que mesmo não tendo ido à escola alguma, parecia ser a pessoa mais inteligente do planeta. E como certa vez, bravamente, ela espantou um besouro que adentrou o quarto cor-de-rosa de sua filha (perdoem-me o sexismo). Besouro - mais especificamente o escaravelho - a existência mais irônica e poética já conhecida por ela: rolar bosta orientando-se pelas estrelas.
A notícia em forma de correspondência sobre sua aprovação na universidade federal tinha uma prerrogativa espacial em sua memória. Queria abri-la na frente da família, mas não se continha, experimentando pôr contra a luz para ver o que havia dentro do envelope. "Passei. Adeus, adolescência!".
A universidade de fato foi um divisor de águas. Por sua beleza as coisas pareciam fáceis por lá. Era elevada a categoria de arte pelos colegas (L.H.O.O.Q.). Teve um caso com a professora de Espanhol I (sempre encontrou poesia em tudo o que fosse dito nessa língua) e paixões como a pelos dois amigos, concomitantemente, sem que eles soubessem um do outro e quando questionada, jurou de pés juntos que não, mesmo sendo atéia.
Mas paz para ela nunca gozou de graça, procurava "sarna pra se coçar". A calmaria e a monotonia eram coisas de gente velha que já não esperavam nada além da morte. "Mas paz é isso, não? Algo que apanhamos do outro por intermédio de uma coisa chamada relação. Se quero paz, eu pego a tua. Puro fisiologismo¨, uma vez disse ela numa discussão calorosa em mesa de bar.
E então a formatura, emprego. As responsabilidades lhe caíam às toneladas. Não havia mais tempo. Precisava viver como todos os outros, presa nesse movimento pendular, buscando aliviar as dores do caminho com viagens e placebos tecnológicos.
Sempre esteve em conflito interno por querer não se contradizer. "Mas isso é impossível, meu amor. Teoria e prática são amantes raivosos.", enfatizava o maior de seus romances, o homem que não mais conhecia. Chorou feito criança esses dias ao lembrar dessa tão estranha criatura, enquanto assistia a belíssima apresentação do poema do obsessivo-compulsivo. Pensou em desviar de seu caminho para o trabalho e passar na casa dele. Ele ainda residia no mesmo endereço. Endereço para o qual estudou por anos mudar seus problemas. A mesma rua de sua aurora, uma rua abarrotada por lojas de noivas que por consequência de um bombardeio tradicionalista, fundamentalista, colonizador, idealizava se casar como uma princesa Disney. Lembrança que a levava às gargalhadas toda vez que recorria.
E num irascível desespero por ver seus sonhos corroídos pela mesma pasmaceira que tanto se opunha, acendeu um cigarro, tragando a fumaça e o passado para o peito. Tudo parecia tão absurdo nesse momento dentro daquele carro. Decidiu pegar uma outra direção que não a do presente.
Chovia lá fora e o futuro agora era o que tinha nos bolsos da calça. Mas ela sorriu.
E nunca mais se ouviu falar dela.

"Afinal, qual é o valor da vontade quando o espírito está faltando?"

domingo, 28 de julho de 2013

Forks and Knives


"Tire o seu sorriso do caminho...


- "Meu amor, tenho planos para nós. O que há de vir é nosso. Nada pode nos desviar. Quero contigo casa, filhos, prestações. Quero dividir os problemas, as dores, somar as curas em sorrisos. Te quero perene, meu monarca de fábulas infantis, nessa piada travestida de vida que insiste em nos chamar de posse." Foram exatemente estas as tuas palavras, lembras?

- Lembro. Mas não acredito mais nesse sonho médio que desde a Roma Antiga fundamenta essa história. O futuro vai sendo brinquedo do sistema vigente, mantenedor de antolhos direcionados a propriedade seja ela matéria, seja ela essência. E a capitalização do amor, leia-se casamento, via de regra afagada por interesses eclesiásticos, receita com todos os itens a desvalorização do mesmo num salutar de cofres alheios. Quer-se o bem, meu bem, se é que você me entende.

- Mas que mal há nisso, construir o estereótipo desse status quo, já que não há mais nada além da carne? A revolução é a própria contrarrevolução moldada para ludibriar a dúvida!

- "A tradição é a ilusão da permanência.", Woody Allen foi quem disse.

(...)

- Lembras também que no início do nosso relacionamento me dizias que contavas as vezes que precisarias fazer as unhas, escovar os dentes, abrir as janelas... quantos banhos tomarias, quantos filmes assistirias até poder me ver novamente? "Este é o último pentear de cabelos até o encontro", era a frase que persistia na frente do teu espelho!

- É, dias que pareciam anos para mim. Mas a distância era o que nos mantinha sãos.


- Eu sei que insistes em ver essa letra escarlate em minha testa toda vez que nos encontramos. O que fiz foi por pura insegurança, eu sei, e nada define melhor (ou pior) mea culpa que isto!

- "As nossas únicas verdades são as nossas dores". Isso é Alphonse de Lamartine ratificando a minha existência.

- Crias na anodinia da nossa narrativa, não é?

- Sim. Eu cria em ti.

- Nosso desamor já fez aniversário, viste?

- Vi.

- Foi tudo tão célere e silente que nem percebi o tempo passar!

- Para mim nada foi tão custoso e gritante quanto.

- Tens razão, vai ver foi isso, demorei, deveras, para entender. Não te mostrei a minha nova tatuagem!

- O que é?

- "Se não a realidade que me cospe esse agora
   Sê então o fantasma que me assombra as horas". O teu poema que me escreveste!

- És louco.

- Eu sei!

- Bem, já peguei tudo, vou embora.

- Calma! Mas e o conjunto de talheres de prata que ganhamos de presente em nosso casamento?

- Enfie-os no cu. Adeus.


... que eu quero passar com a minha dor."



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Colcha de retratos



    Porque mais alguns passaram sem parecer que eram 30. E outro mais se acabou sem quem dissesse "faltam ainda mais 10"  e o passado, encarado aqui de onde estamos, cheira estranho e alheio - como não fossem seus o mel e o fel.  Como se a outrem tocasse.

   A gravidade te prende ao chão. Ah! como era bom ignora - la! Mas nada que se conheça, uma vez guardado, se pode arrancar do esquema ao qual pertence: seu lugar na malha das parcas. Então guardo seus beijos mais molhados. Dobro os gemidos mais suados, o palpitar mais suave, seguido de inesperado espirro. Ponho tudo numa caixa que, um dia talvez lhe envie. Tenho o cuidado de não vincar o tecido que cosemos com unhas e dentes e pêlos.

   Os louros ainda esperam, sem saber que já ninguém lhes há de colher no encantado descuido de um bucólico pastor de ovelhas. Não há mais  espaço para romantismos, você sabe. Ao longe uma pequena ninfa sopra em desafino desgastada flauta. Belas odes já lhe acompanharam; dela, lindas melodias já brotaram, doces como o quê. Ou quase.


   Mas as notas agora só vem mesmo do burocrático relógio pregado na parede da cozinha. Conforme os tics convertem - se em  tacs, mais apáticos ficam os homens. Menos viçosas as mulheres, as coisas. Bem, as suas miudezas ficarão na caixa, já que não sei aonde ou como endereça - la. E servirá de apoio a despojadas vestes, em noites suadas e afoitas, embalagens de presente a se espalhar pelo chão do quarto.

Esse não é um poema de amor. Essa não é uma data especial. Esse não é senão o m'Eu lírico. E isso é a verdade, somente a verdade, nada a mais que a verdade.



Pode rir agora

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Quatro - dois



  Branca, branca, branca. As palavras não são minhas mas divido o torpor verborrágico de poucos sons e a hemorragia do Chico em todo seu estupor. Vivo agora flashes de toda minha vida repartida no espaço nu desse corpo lindamente angulado em meu leito. Não sei o que faço, ou como faze - lo. Sei tão pouco o tanto que me faz bem. Não estou triste, senão confuso. Também pudera...



  Estampado na pele traz - se o signo duma oração velha como a vida e repetida no calor monossilábico de lascivos cultos pagãos rendidos a uma divindade distante. Por muito pouco não tomo parte do que me apetece desse hino, sonho de Brahma. Frequência perene por breve que pareça e seja. Mil anos em um dia e um dia de cada vez, ah! Que assombroso é o amanhã! Bravo Mundo do Amanhã!



 Há grande medo do que não se conhece. Pois só se toca o hoje, que ele agora está aqui. Por hora é tudo. E  basta. Na picardia urdida em teu nome, com o qual brinco (sopa de letrinhas a desenhar teu DNA), repito em surto o curto som de você na minha boca, escorrendo na língua, descendo no peito até de uma vez vibrar teu gozo.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O alfabeto de Vênus: Linhas gerais


Tracei uma linha. Uma reta ligando dois pontos na tela negra da noite escura. Não satisfeito fiz mais: outra, e então outra e, por fim, lia teu nome, silencioso e doce ali onde ninguém mais te poderia adivinhar. Minha onde eu e apenas eu, egoísta e solitário como sempre, te posso encontrar.


Sei que se apagará um dia, tão logo não possas mais mirar a luz que vem do frio distante e infinito que te dou. Até lá poderás divisar o que é teu, pois que para ti hei riscado, com meu olhar perdido e a ternura imensa e insondável do que agora sinto. Tão líquido e tão certo quanto o breu do espaço e tão teu como meu pensamento apenas. Preste atenção nessas linhas e há de me encontrar, noite após noite.


Minha angústia reside em saber que nada nem ninguém te poderá ensinar meu alfabeto;ainda que a ti entregue, te dando minha alma e a poesia minha sei que tomarás pouco menos do que a ti te toca. Talvez nem isso sequer. Mas pouco importa. Já pela manhã eu mesmo não devo mais encontrá - la, ofuscada na luz branca do cotidiano. Não que lá não esteja. Apenas não se pode percebe - la descalvada e bela como fora noite passada.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Compêndio

Com o perdão da repetição...

No início, assim sujeito, se vê a criatura. Matriz oca a se originar o conceito. A palavra engessa as idéias, limita-se a condição da imagem ao que o nome carrega. E você vai sendo inominável - inefável - pela fluidez de seus movimentos, pela vontade dos teus (an)seios, dando sinal na estrada das paixões. O hedonismo é carona no manifesto contra as amarras. É tudo que somente o teu corpo pode explicar. Pintaram um afresco teu no muro dos portentos.
Teus amantes, todos traídos pela internalização do teu pai - talvez Jung ou Freud tenham uma teoria melhor - seja mesmo ele cristo ou diacho, persignam-se em lágrimas salgadas e em soluços litúrgicos devotam ao teu templo nu.
Entretanto o Tempo, deus impassível e verdade, devorador da tua imortalidade define o espaço - do tamanho de um quarto onde divides o ar com teus troféus, arquejando sem efeito  - deformando tudo, outrossim, o teu sopro ontológico.
E na origem a imagem zomba do conceito mesmo sem a idéia da própria conclusão.
Não obstante, a letra sempre me puxa o signo quando apelo à escrita.
A tua diferença sustenta qualquer semelhança. E como pássaros que explodem ao chocarem-se com edifícios que antes não estavam alí, você reitera a minha existência.
E o fim é nada mais que o teu nome.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Rocket Science

peebleslab.com

Um cigarro que tentei fumar ficou aceso no parapeito da varanda. Daqui de onde moro é tão alto que posso ver as linhas vermelhas e amarelas que os automóveis encadeiam à noite, contornando a ilha que nenhum homem é por si só. John Donne e sua parte nesse todo imortaliza a necessidade do homem pelo homem. E eu te necessito, ó estrela de grandeza não constatada, de brilho invisível. O rosto é contraído pelo fulgor da tua passagem. Queria eu um coração de um suíno, pois além da semelhança e da possibilidade, ver-te-ia não mais que um algoz que da minha carne faz a tua refeição.
O amor perde a vontade em sua divisão. O definido é indefinido, pronominalmente um qualquer.
Conjeturo, às vezes, como uma cena de um filme, onde em plano sequência nosso diálogo é visto da perspectiva do resto do mundo numa praça - meros coadjuvantes do nosso momento - e eu digo que voltei porque vi naquela fotografia a lhanura do teu olhar à quem estava por trás da câmera no instante da captura. E como alguém que muito longe de casa xinga em sua língua-mãe de saudade, te beijo mesmo antes do close final. E os créditos passam despercebidos.
Deliberadamente deixo o cigarro cair da varanda, pois eu não fumo e a fumaça já me incomodava. Mas é que eu sempre achei fascinante o jeito como você fuma os teus.

Atenção! Texto em itálico. Segurem-se; inclinação piegas à vista:
Talvez a ciência dos foguetes seja menos complexa que a do teu amar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Tempos modernos


Confusion that never stops / closing wals and ticking clocks


  Sobe o fio de fumaça que é denúncia daquilo que esteve, não mais. Leve como o vento que sopra e mais ainda, como as nebulosas marcadas contra a estática tela escura. Longe passam secos automóveis como ondas, feito doppler, distantes que estão da praia, enquanto aqui nessa selva em particular a chuva cai desavisada e cheia de preguiça.

   Tudo parece ignorar a pressa que é sinal de nosso tempo. Não se respira mais como antes. Sobra  o que é cinza, final anunciado de tanta combustão-trabalho e tal. Relva úmida, leito de orvalho, leite morno. Sentido pro que se sente é busca vã. Filosofia, que seja material de modelar a massa; poesia, matéria que se viva. Afinal, fazer poesia é enxergar através das palavras.


Hush. No Rush.

sábado, 6 de outubro de 2012

Sufrágio

O teu sorriso preso na garganta da paz

É chegada a hora e tens de decidir dentre as centenas. 501?
Porém existem dois, especificamente, que te saltam os olhos:
Um é um indivíduo mimético da vida comum - a preferência ecumênica - regido por uma hierarquia educacional, carregado de jóias e presentes - que ele trouxe de Paris numa viagem a negócios - prenhe de idéias fátuas. Um sujeito encômio para as mães, avós e sogras. O mais do mesmo em sua essência. Te promete o inimaginável a fim de granjear o teu voto.
O outro, neurastênico, famigerado por seu passado, de pretensões mais parcas, mas cheias de paixão pela mudança é o que mais condiz com os ideais que possuis. Ganha no corpo-a-corpo - isso tu sentes - nas retóricas; seus discursos inflamados são a assunção das células revolucionárias - todo coração - que te tomam ser humano. Todavia, julga-se menor que o outro por não possuir o capital necessário para investir em sua campanha de conquistar o teu voto e ser eleito.
Resilientes os dois, porém de opostas formas. Vêm para soçobrar tua calmaria, te fazer pensar sobre futuro, querer tender um lado da balança.
E a tua indecisão é um jogo político onde a tua história vai determinar quem escolherás. Por mais que suponhas que a escolha seja tua, nós já sabemos quem vencerá, não é mesmo, meu amor?

A memória eidética é o pior inimigo

domingo, 23 de setembro de 2012

Carta aberta a minha Amada



Vitória, Presente meu


  Depois de passados 26 anos de você, aninhado em teu seio, percebi que sim, te amo. Mas existem outras tantas de você, outras tantas das quais me privei, em princípio , por seu amor.
  
  Existem muitas outras iguais a você. Decerto não com suas marcas de idade ou sua estrutura óssea, sua experiência ou o cheiro sujo do seu sexo e senilidade intrínsecos. Mas há muitas por aí, com tanta ou quem sabe mais beleza, curvas e reentrâncias se banhando ao mar e curtindo ao Sol. Todas muito cativantes, mil memórias não vividas de doloridos gozos e outros mistérios os mais variados.

  Só hoje percebo o quanto fui pueril em prender - me a ti, como se os sentimentos forjassem grilhões e não laços, raízes e não ramos. Vendo meus amigos, sei que muitos deles sempre te olharam com desconfiança. Nunca puderam te enxergar como eu, porque afinal nunca te amaram como te amo. Não te conhecem pelos meus olhos. É que amam eles amiúde, promíscuos como os amigos são.
 
  Se hoje beijam mineiros lábios, amanhã já se deixam encantar por catarinenses verdes íris, transladando todo afeto sem jamais direcioná - lo a outro lócus que não seja o externo. Devo admitir aqui que os invejo por isso. E admito também que é hora de mudar, pois se de algo realmente sou carente é de me alijar. É duro, sei, mas devo  me emancipar. Ouço alguém cantar que "é necessária a nova abolição" e faço coro. 

  Parto doído sabendo que no entanto sempre terei em teu riso de mulher meu Porto Seguro, minha rosa dos ventos a nortear os passos meus. E onde quer que ande, aonde quer que eu vá, será sempre a você que sentirei na pele, sempre o teu cheiro que estarei sorvendo indiferente do jardim. Mas hei de provar outras delícias e descobrir novas geografias. Sei que ao voltar te encontrarei a minha espera, c'os braços abertos e o hálito frio que tão gostoso me arrepia a pele. É que me chega a hora de sentir na língua outro mel e outro leite. Mas sigo sempre seu

         
                                                      Amante

domingo, 26 de agosto de 2012

Chuva

Ecce Homo e piegas metáforas sobre a restauração do amor

Queria eu que a torrente dominical, em toda a sua representação gênese - essa brisa anímica que me bate - lavasse não só a semana que passou, com todos os seus pesos e rastros; mas também a tua insegurança que vela sobre o cadáver da nossa conclusão.
Se por um triz fomos, sem querer, tamanhos, perante o medo dos abismos medidos com os beijos de tantas ilusões, por que não acordar sobre uma corda bamba, enquanto a tormenta passa chamando tua vida pelo nome?
Se eu pudesse adjetivar, em um só predicado definir-te: Vontade seria. Pois isso tens pulsando nas artérias de um coração contumaz. Isso é o que me faz desejar não por singelas vias, mas por, quiçá, talentos latentes, pintar afrescos renascentistas representando a tua beleza; produzir concertos, nos moldes de Pachelbel ou óperas como Puccini - leigamente julgo-os referências - patenteando o meu anseio por ti; 'pelicular' cinematograficamente, com orações a Godard e Truffaut, as intempéries da nossa história.
Ao passo que nunca serei, mas sempre estarei sendo, faço jus ao meu relapso senso de direção e pelas veredas da tua incompletude me guio sem foco, olhando tanto para trás, me mantendo aos tropeços nas linhas tênues do teu querer, açodado, pelas poças que se formam do que mana da tua libido, arrebatado pelo que tua boca sopra para suster a minha memória fugaz.
Por tudo o pronome possessivo impera pelo ar, cordas vocais, língua. Vai tanto de encontro a realidade que é real agora eu me encontrar tão teu.
E que sobre esse céu cinza. 

Sinapses

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

As Trepadas Que o Mundo Dá


Não saiais por fim dos sonhos tantos quando a boca gela ao beijo desconhecido

Sim, o mundo literalmente dá voltas. A teoria do caos em sua definição circular. Inaudita a palavra de quem o viveu e sabe, por seu instante, os louros que abarca. Toma pelos olhos secos as proporções do horizonte.
Por psiquê, não se reconheça por tuas façanhas, mas sim por teus pecados! Segure essa mão esquálida rente a consciência e entrelace os dedos pela garantia da incerteza. Sim, pois o que move a exatidão é o medo do fracasso. O que move o teu amor é, simplesmente, não tê-lo.
Quem dera visão ao fulgor dessa beleza?  Não te cabe o que brilha na eterna excelência do querer?
A língua é melíflua, veneno afrodisíaco que entupiu coração crente. Canhestra a forma que a volúpia contorna. No vário se vê metamorfose, a pele é metáfora do dia em cordata com a noite. É cria da própria diferença - e assim vai sendo. É pauta a qualquer melodia. É dívida paga a qualquer sorte.
E assim, sob a tutela de um abajur amarelo, percola tudo o que já se vira antes; parece a sombra não querer perder o contato, parece a luz querer saber do que acontece por alí, enquanto a carne faz a sua festa cega de desejo.
E o mundo dá voltas, mas já dera tantas que isso parece ser só vertigem.

Pretirais em virtude de teus lençóis amarrotados

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ave rubra


                                                     Voa, avae, aberta no ar
                                                     De penas vermelhas
                                                     Rubras de teu sangue
                                                     Um rubor sem vergonha
                                                     Cor de sangue e cinza
                                                     Tua filosofia de vida é vaga



                                                     Pra um mundo tão torpe
                                                     Um mar de gente egoísta
                                                     Cercado de narcisistas
                                                     Mundo de agoras, onde o tempo...
                                                     Ah, que é o tempo? 
                                                     Seja lá como for, não és escrava


 
                                                     És senhora, Dona. Ave que trina
                                                     Os olhos fechados, pra ir mais fundo, voa!
                                                     Voa, ave, avessa ao não
                                                     Pássaro sem futuro, voa!
                                                     Voa, que teu tempo é sempre.




quarta-feira, 11 de julho de 2012

Barro, Costela e Pecado

Das histórias, eu só lembro do final.

[Porta se abre]

 Eu digo para ela:
- O problema sempre foi o início. As idéias embaralhadas na mente, prontas para escoarem, desaguarem o rio da melancolia na imensidão branca. O mar das letras por onde navegam tantas teses, hipóteses e antíteses; dúvidas. Certezas são tesouros latentes.
- Soubera da notícia de que García Marquez está sofrendo de demência e não mais escreverá? Nossos grandes escritores estão se esvaindo como água - tragam-me o mar desse horizonte - e os novos apenas sofrem a influência e com a fluência reproduzem, mas com qualidade inferior. Pois tudo já fora criado? As referências vão ficando apagadas e amarelas como velhos livros. E o nosso futuro vai parecendo cada vez mais com um papel em branco.
Mas ela nem quis me ouvir e fez logo do nosso quarto alcova para os olhos da noite, querendo, apenas, saber do rumo dos nossos dedos que beijam, umedecendo as vontades que só se acabam pondo fim ao mundo. E isso é demais para mim. Teu corpo é, cada quark, um feito da loucura, chama que queima a alma mais branda, nuvem carregada que não sai do céu e fica alí, se aprontando em miríades de formas que contorno com as mãos. Tua língua é viva estrela que aponta o meu nome. Te tocar é não querer me perder no espaço de cada pedaço e saber todos de cor - coração? E o sabor é de sina; o azedume do suor das nossas rotinas, temperado com o doce da volúpia. É castigo levado aos meus dentes preguiçosamente. Divido tanto o meu sorriso nesse instante que o tempo pára. Quem sabe é luz o que me orienta?
E ela se levanta da cama, se veste, caminha em direção à porta e me diz:
- Está aí a tua referência. Tchau!

[Porta se fecha]

O demente aqui sou eu.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Regionalismos endêmicos



Ver de longe a tua silhueta e saber que você não estã lá é uma dor gostosa e até engraçada. Os loucos dançam sozinhos no meio da rua. Eu te encontro, de novo e outra vez, noutros lábios e delícias que não te pertencem. É assim, sempre sobre você, passando por cima.

Sobreposições em desnível, como velhos ladrilhos de cidade velha: mova uma pedra, duas, sete pedras e tudo ainda estará lá. Como da primeira vez, como aquele antigo bar que foi nosso e que hoje nos é negado. Porque não é mais da gente. Não há mais a gente, sabe?

Sobram apenas os loucos que dançam sozinhos e falam de um amor que desconhecem. Cantam canções que não lhes pertencem, fora de hora, "brincando de papai e mamãe que se amavam livremente entre as flores". Esqueceram envergonhados como é "brincar de casinha" e embora desfrutem de leito sempre quentinho, estão constantemente sozinhos ao nascer do sol. Pior: sem Café da manhã.



        *          *          * 


Daí olho pro lado e te reconheço mais uma vez. Sinto que vai começar tudo de novo.
Mas talvez não. Essa pode ser só mais uma poesia sobre a gente, caso (ou nesse caso, casos - a cada vez um novo) muito específico. Mas talvez não. Talvez seja só mais uma poesia qualquer, de um poeta qualquer  esquecido num canto  de uma cidade velha qualquer.

  

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Samba de (Ama)dor

Assim, como do nada, tal Terpsícore, fez-se a figura dançatriz. (Re)trato, beijo pregado na cruz do meu movimento. Essência de um querer perdido em avenidas profanas.
Presente: alcunha da vida arredia que faz do fogo primazia. Tentativa do pé do-ente.
É cordão que amarra a mim. Nêga que tira uma nesga do coração quando samba assim.
Deísmo; criadora de um universo que me deixou para tratar, sem canto ou tamborim, no impulso que pulsa o batuque do meu penar.
Me faça, então, verbo, ó divina inspiração! que no sapato, cadenciado pelos acordes da viola e a invariável do teu olhar, eu vou.
E por fim, me desperte num compasso, pois te ver foi um samba tão comprido que precisei de muitas noites para sambar.


sábado, 31 de março de 2012

31 de março








Preservo teu nome como quem esconde de si mesmo, com medo de ouvi - lo escorrer de minha boca e perder - se ao sabor do vento. Tanto pior que ouça meu chamado piano, sabendo assim que escondo - ou antes tento - um sentimento que é teu por direito.






Que encerro no peito o nome, poucas letras, não aquele que lhe deu teu pai, mas o nome que te arranhava o ouvido desde a minha garganta, vindo de um imo tão íntimo que julguei preciso dize - lo baixinho, na esperança que talvez não me escutasse o indecente apelo, me deixando livre para partir sem hesitar. Preservo teu nome de alheios ouvidos, das línguas que estalam mas não merecem teu desenho evocar: não lhes pertence ou cabe a tua silhueta.


Eu preservo teu nome tão bem, amante, que por vezes acho que ainda estás aqui, que não me levou - te a noite fria e que de fato basta virar - me e abrir os olhos para de novo vê - la. Pena que não possa estar mais longe da verdade. Assim sigo eu de olhos baixos e c'os pés cansados.






Busco voltar a ti pela velha trilha de migalhas e sinto inútil meu esforço. Não posso senão guardar teu nome besuntado em nosso cheiro, que me traz magicamente tudo aquilo que deixei passar. Me preservo dessa forma pois gozo sozinho minha própria escolha egoísta (novidade das novidades!) e não me resignarei a dividir contigo a felicidade que me ofertaras. Caso contrário, sinto, estaria fazendo pouco desse sentimento que me deste por presente.




Não concordas?