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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sombra




   Quem é você que pousou por um instante aqui, como uma alma sombreando um lugar esquecido, pouco habitado depois da morte daquela senhora, eivado de injúrias e tratados sem conclusão. Eis que os dentes brancos, apesar do cigarro, não perdem o poder de atrair, estavam todos eles unidos e bem calcificados, mas será, assim como esta copa do mundo no Brasil, um misto de sentimentos e uma onda metafísica que não consigo deixar de gostar, ao ver todos aqueles dentes, que formam uma bela arcada dentária, quando se postou, após o abrir das cortinas, não consegui, apenas me rendi.

Todo o movimento bêbado daquela menina, não entendia o possível significado maltratado da vida em um flerte, não poderia crer que aqueles olhos seriam muito mais vivos do que pareciam. Tendo em vista todo o conluio mundial em torno de coisas fúteis, não acreditava que poderia discorrer sobre a vida com aquele sorriso, imóvel, enquanto a boca se movimenta.

Mas como tudo é descontinuo, tudo é admirável mundo novo, por tudo, não consigo agitar para explodir em algum lar verdadeiro e harmônico, este é o tempo que não desejo conceber por você, indago o valor social, o que lhe faz vivo, e não estará por entre essas frestas por onde vejo seu âmago entreolhar-me em claustrofóbico aperto; mas passa, passa rápido… e eu não saberei quem é você em um próximo passo, eu passo. Com amargo deixado, não passa de uma sombra.

sábado, 16 de novembro de 2013

De 1927 até o fim.

                                                    
                                                      " Fervor, tremor e outros souvenires"



O jeito solto não combina mais com ele, aquela ânsia de sempre colocar a escova perto da pasta soava como um TOC.  Quando estavam longe era foda, era o mesmo pavor que sentia em momentos de insegurança em um lugar estranho e barulhento. Por via das dúvidas, sempre colocará o celular em estado de alerta permanente, pois sabia que com o enviar de mensagens sua dor era amenizada, suas células respiravam; era como um analgésico potente, algo como morfina, ou aquela dose que deixa a boca dormente, com lábios caídos e insensíveis, pronto pra ser obturado.

A culpa que sentia era tamanha, que o homer (hombre) não conseguia mais grudar o ânus quieto em uma cadeira, a mesa de bar era como um câncer maligno que separava os seus pezinhos grudadinhos com de sua amada.

Como classe dominante, detentora dos meios de produção, esfinge da produção econômica, rica em proteína. Em seu (in)verso encontra-se o proletariado, pastoso, serviente. Culpado por escola e religião. Maltratado e submisso, no entanto, imensamente criativo e multicultural. 
No conluio desta tendência, pega carona a incoerência coexistente de viver e sobreviver, vivendo o sol, convivendo por essas chuvas, transmutando, perdurando, irritando, destruindo e construindo tudo de novo.
 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Baladinha








''Minha vingança será um sorriso carimbado na face e o éter a me escorrer das mãos''



  - Jura que já houve quem experimentasse tudo isso e ainda assim abrisse mão? Digo, se hoje estás aqui é porque alguém desistiu... ou você se cansou... afinal... – é quando batem a porta para interromper o idílio que é o infinito preguiçoso de uma tarde quente  de segunda.
   
  Era o vizinho, como sempre, incomodado. Curioso. Pouca coisas  há capaz de incomodar um ser humano que um seu semelhante em estado de graça. Poucas coisas evocam mais a desgraça, é dizer. Um carro do ano. Uma mulata passista em mão alheia ou um gemido alto  o bastante para furar a privacidade das paredes  cotidianas.

  Ele, o vizinho, senhor honesto e trabalhador. Por vezes recebeu troco errado e com ele ficou. Quem pode culpa – ló? O homem que tem por predicados ser tão homem quanto todos os demais, nem mais nem menos nobre. Aquele que não fede e não cheira, não fuma nem nada. Senhor das virtudes normais do Mundo normal da natureza humana. Classe: Medíocre. Aura: Mediana.

  Ficaram os dois em silêncio e recolhidos  sob os lençóis úmidos de seu paraíso particular. Assim mesmo, como em um romance barato de banca entre jovens adultos que ainda não puderam romper a casca do adolescer. Tudo  silêncio e pieguice,  não fosse o arfar pesado das suas respirações ansiosas. O vizinho batendo, batendo e bufando, até cansar. Não dava trégua em suas reclamações pequenas e egoístas. “O barulho vai muito alto, vizinho!” se recebiam amigos para uma conversa simples. “Preciso dormir, ora essa!” se havia música para animar o encontro. ”Vocês fumam demais! Que cheiros  são esses?” e por aí em diante, ou seja, não se pode mais jantar. Não se pode ter amigos, ser feliz  é  crime agora?
Foi embora e não ouviu o riso abafado entre brincadeiras e travesseiros. Amor assim, de cama, mesa e banho. Ah! E álcool, claro. Que ninguém é de ferro. E somos tão jovens...

  A noite chega apontando planetas e estrelas ou o que mais que brilhe na seda escura do céu.  Estão cansados de nada, felizes por tudo e convictos: Ele é só dele. Ela não é de ninguém.

  -  Pede você, você sabe que eu não gosto de falar ao telefone.
  -  Pede o de sempre.
  -  Vem logo pra cá. Eu bem poderia te usar agora. Sabe, desde que eu me apaixonei por... 
  -  Cala essa boca, cara. Sente meu amor?  
  -  Que sorte a minha te conhecer! Meu bebê!

  Mais voltas, corcoveios. Cavalo e entidade, peão e rainha. Buddys. Um dia, porém, os enjoos. O suor incomoda, a emoção que acabou, o “liga você, olha a frescura”.  Por fim as retas paralelas, os “olhos nos olhos” e o “passar bem”. O anacrônico sentimento da traição que não houve.

  Se encontrarão ainda nas noites, nos bares. Dois estranhos caminhando na turma de rostos conhecidos. Nada houve, parece. Não foi nada, já passou. Ah! Essa juventude transviada! Os encontros furtivos e os amantes passageiros. E no fim, como diz o outro: “Um enfarto. Ou pior,  o psiquiatra”


(I do. I do )




sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sem som





Escrever pra você é desviar-me do futuro. Escrever pra você é dizer não. Escrever pra você é fechar-se em clichê. É cuspir em pratos limpos. É viver o lúdico romance como um fóssil hostil. É pestanejar ao ejacular meu clima árido sob re duras penas, suja... sim, é uma pena.
É tentar ser valente caçando culpa, ao fazer troça do irreverente menor pistoleiro. É assistir um filme em preto e branco, sem som, do diretor dramático espanhol cult. É situar-me em instantes crônicos de uma lenda, sem sinal, sem vida. É protagonizar o velho, excêntrico e moribundo, sem paladar para novidades. É sugar o que resta da sua vida comigo, em minha varanda opaca, com nenhuma luz. É viver nesta prosa sem fim.

sábado, 11 de maio de 2013

Agente equilibrado.




Peixoto foi curtir o carnaval carioca, gostou das pessoas, animou-se com a cidade, perdeu-se nas ruas fantasiado de bate-bola, vibrou com os concertos voadores, palavras de incentivo, cerveja espirrada e sorrisos saltitantes. Parou na esquina, realizou- se urinando; curvou-se, na espreita, por uma bailarina comediante, com um algodão doce em suas mãos. Desconfiou das falácias de um homem sóbrio, pediu a mão para levantar-se da rasteira que recebera, não foi nada, disse ele. Perto disto, vem uma onda, ele não impede que a mesma o leve para o caminho do ameno e sensato equilíbrio, sem estas calçadas mijadas, sem esse cheiro maroto solto, sem as conquistas vazias, sem desperdício necessário.
O mesmo homem que se mostrou valente, se torna o peso morto de outros tempos, perto da estrada infértil deve seguir. Descontrole é infame, inimigo da resignação de outrora.
É perto dela, na fila, na chuva, em uma casa ou naquele quarto úmido, morada anárquica da velhice solitária, encontro-me com as toalhas sujas que secam essas lágrimas jovens e caídas.
Longe do carnaval, Peixoto volta pra vitória, honesto, febril e cult. Bem-vindo, parasita da desordem, tomemos outro drinque para celebrar.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Paulicéia



É que Narcisa acha feio o que não é Espelho



  O beijo frio da grande metrópole me arrepia a pele. Me contraio até estar pequeno, contrito, compacto.
Submissa vadia, contorcido ante o peso de tudo que me é estrangeiro. Sou vadia mas gozo, entre a Paulista e a Virgem da Penha.


 Penha = Pedra

 Vadia = Rei

 Afinal, que rei? Tão diminuto e aqui fora tudo oprime. A arte do que é santo, a força somada de um povo ambicioso e curvado diante da cruz de quem almeja o ceu. Povo bruto que de fato nem percebe a alma que tem  - doces bárbaros. Um homem de preto passa displicente a despeito dos discos voadores. Ali pra frente , só o pó. Saudades de estar de preto.

 Luzes viajando na velocidade de uma esporrada e nas ruas, línguas ardem sem que se possam compreender. Poetinha. Poe. É... tinha. Fraco.

 Magnífico espetáculo, e eu, merda, não capto tudo. Nem jamais captarei. Indolente, então, ilhéu e preguiçoso, deixo isso aos que me seguirem.

Olhando o "jardim" do Patriarca foi que percebi.


Pessoas já disseram tudo o que havia de ser dito. O que dizer além de tudo isso? 


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Samba Criollo

 
 
 
 
 

A cerveja com outro gosto ainda é cerveja. Você sem mim ainda sou eu um pouquinho.
 
Mariposas dançam na sala de estar aquele esbaforido minueto: polegar, indicador, médio, anelar. Indicador, Médio, Anelar, indicador. Enquanto isso, crianças derramadas choram no leito quente do asfalto.

Estão atônitas ante o espetáculo do absurdo que é o carrossel apagado de suas tão curtas e amáveis (ainda que não muito fascinantes) alheias vidas. Nuvens passam -  brinquemos, Nuvem! 

Deixemos de lado a angústia, a dor e a certeza da dúvida (benefício? pffff). Por essa noite, pelo menos. A mariposa de sonho vem afinal repousar vadia aqui em meu peito.

 
 
"Aqui, ninguém vai pro céu"

segunda-feira, 25 de março de 2013

Novela do malandro - cap. 1



                                            'Igualdade moderninha é melhor que a realidade'


Godofredo era um jovem típico, alvissareiro intelectual, habitue do circo cult boêmio, de uma capital que segue sina de ser apelidada com diminutivo carinhoso. Conhecedor assíduo da palavra e dos martírios: amor, capitão do desastre, navegante embarcado em sonhos distantes, desde maremoto a tsunamis. Fredo, diz: “ Veja só, não se sabe o motivo, apenas sabes por quem eu vivo, por você, marmita: morna ou fria”.
- Vejo o cinzeiro cheio cinzas. como vai com a birita? Acabou? Ou resta algo em seu fim?
Depois dos devaneios, segue a estória...

Godofredo, tem seu sistema límbico abastecido por um forte fornecedor de vulvas russas, que servem como peça de provimento emocional e sentimental acendendo o modo on de existência. Sendo este, seu único fornecedor. Era um medo.
Andava pelo tempo praticando esportes de raro costume pra sua época, sempre equilibrando seu cigarro, quando sim e quando não, um copo de cerveja. Orientava-se pelas sombra das luzes dos postes (com mérito, pois pagava pela taxa de iluminação pública sem atrasos) pela madrugada calorenta, mas pra ele, sempre fria e esfumaçada.
Certo dia, conheceu Amena, uma jovem mulher, não tão jovem assim, não tão amena assim. Entretanto, Amena emanava a paz necessária para a sobrevivência na terra, contudo, a paz esbarrava em aleatórios problemas com o passado, com o presente e com o futuro...  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Olá coxas de bela donzela! (ou monólogo poético de um último romântico)






  Olá belas coxas de jovem donzela! Nossa! Há quanto tempo! Como vocês cresceram! Tão durinhas, pero sin perder la ternura... Por onde andaram? Onde estiveram vocês, então tão branquinhas, que hoje  me aparecem tão moreninhas e queimadas de Sol! 

  Vocês tão roliças, sempre tão doces, mesmo quando salgadinhas dos calores vespertinos que escorrem sem pressa... Coxas nuas, tão carentes dos carinhos meus, tão vistosas e muito cobiçosas. Coxas de luxúria, Blancos muslos de ayer que palpitações profanas me trazem na circulação. 

 Há tempos não via suas graças rotundas e, quando cantos noturnos lhes rendo, são esses de core. Lembrança apenas de meus dedos passeando onde nenhum homem jamais ousara (e onde eu mesmo não alcancei ainda na minha triste e hirsuta vigília).   Mas eis que me dão as costas em fingido sinal de desprezo. Oh, Lindas coxas!

  Que passa convosco? Porque tão concisas, fechadas, ora? Sejam mais maleáveis, por piedade. Ou antes não. Continuem assim, moreninhas e carnudas, firmes de tudo que sigo de tudo um seu asceta, ainda que de mim andem tão longe. Continuo esperando vossa volta, ansioso e obstinado, as espero em pé. É. Pensando melhor, espero sentado. 




terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Parabéns, Malandragem!

No última dia 4 o Malandragem Inquieta fez 2 anos!
Em lembrança ao fato solene, uma frase do Millôr:
"A malandragem é a arte de disfarçar a ociosidade.”

E uma música mais que simbólica:


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Transladar Revisitado


  A verdade no vinho é o prazer no álcool que, absoluto, te hidrata as feridas e que o juízo te acalma. Tudo   então é mais bonito, é mais viço e mais claro. Não que de fato seja e nem que a você de fato importe.

Quando o Mundo se aproxima da hora de girar para dentro do próprio umbigo outra vez mais, a sede do espetáculo parece secar te a garganta. Aí o que era tão fácil engolir, por pequeno e tacanho, te coaxa traqueia abaixo, arranhando - te ali onde ninguém pode ver.

*     *    * 


 Não careço de platéia mas aceito o teu aplauso. Teu abraço seco e frio. Teu cinismo puro e crasso.
Dou - te em troca meu quente regaço - tão oco quanto posso - em todo o muco que mereças me sorver extasiado. Pois que chupe, aos canudinhos, q os beiços molhe entorpecido, fácil.

*    *    *

Sei que nada mais se pode esperar, tudo é urgência! E eu aqui parado. Gira a vida, rodopia, as pernas trançam - se e o baile segue tocando. Ninguém ouve o dobrar dos sinos, mas eles lá estão. O pensamento segue embargado e os poetas cantam o sonho mudo da rotina em devassa. 365 dias lhe caem de novo sobre as costas com a velocidade efêmera do gozo. E é bom. O gozo sempre será bom, ainda que doa em pus e sangue. E tudo já começa de novo.


Não existem palavras bonitas ou feias. Lépidas ou fartas, no final, são só palavras 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Cachorro morto



  Seu Inquieto senta na cadeira de plástico, puxa um cigarro de trás da orelha e começa a escrever no seu velho e imundo caderninho: 

 - Hoje não falarei de amores que sinto ou invento, amores de qualquer tipo. Vejamos... (Pensando)

  Talvez da fé que inunda meus irmãos, que os cega e a mim me reserva certa um cantinho quente e sujo no inferno da rotina? Não, melhor talvez do sistema podre de lucro e egoísmo que esmaga os sonhos e engana os pobres, fazendo crer que tudo que juntem hoje através de suor e sangue os fará melhores no amanhã tardio ainda que infalível? 

  Faz sinal ao rapaz que lhe traz a cerveja mais gelada do freezer, suco sagrado que instiga a crítica e afaga as sinapses. Toma do copo, bebe. 

 - Aaahh! Pois que seja mesmo de samba e amor, de como vai longe o tempo em que mereciam a nossa atenção. Que sirva as novas gerações o alerta de que nós os jovens de outrora é que sabíamos ritmar, ter cadência e a carência que é hoje esse mundo apressado e mesquinho das ruas cheias de gente vazia e de um povo que vive máquina, bicho estranho q é o homem. É isso! Hoje falarei da sociedade das imagens, tacanhas gravuras que passivas não percebem o que passa porque pré ocupados com o próprio preconceito de já não mais se entender criadores, não mais serem semelhantes mas massa só, tudo igual, pareado com o que - mas nesse momento eis que passa em desfile a morena. 

  As coxas grossas, o seio farto, e um sorriso espelhado no autor que dá a ele a certeza de que hoje não é dia de nada daquilo. Descanse, caneta! Sossegue, aflição. Que falta faz mais um dia? Que diferença mais letras?  

  A morena vai linda e a cevada gelada. Todo o resto hoje pode esperar.  

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Álcool


Outro momento... me deparo com esse gosto, é desalinho, em entre cortados caminhos perfeitos por inexatidão, que sempre deixam de existir em algum momento.
Todo caso, vejo esses dois correndo. Trechos dessa aventura sinuosa por satisfeito sadismo, controle e descontrole. Trago ou estrago, o som, essa música, o povo, a indústria, o rico, o pobre; todas as veias por de fora dessas castas, amargo temor da conclusão exasperada, meio manobrado. Respira-te mais algumas vezes, sempre que for caminhar por esta superfície, ela contempla o humor. Você não pode deixar de existir.
Querente de muitas ideias, irrigando as mesmas, me faz saborear-te, afinando os sentidos. 
Perto, o caos, em tórridos passeios por sentimentos pasteurizados e em festas de muito luxo. Este, serei eu, um dia, mais comum que hoje. Mais sóbrio que ontem.
Em algum pálido momento, vou lhe dizer, dizer o que senti por ter você aqui, próxima ao meu fígado.

domingo, 23 de setembro de 2012

Carta aberta a minha Amada



Vitória, Presente meu


  Depois de passados 26 anos de você, aninhado em teu seio, percebi que sim, te amo. Mas existem outras tantas de você, outras tantas das quais me privei, em princípio , por seu amor.
  
  Existem muitas outras iguais a você. Decerto não com suas marcas de idade ou sua estrutura óssea, sua experiência ou o cheiro sujo do seu sexo e senilidade intrínsecos. Mas há muitas por aí, com tanta ou quem sabe mais beleza, curvas e reentrâncias se banhando ao mar e curtindo ao Sol. Todas muito cativantes, mil memórias não vividas de doloridos gozos e outros mistérios os mais variados.

  Só hoje percebo o quanto fui pueril em prender - me a ti, como se os sentimentos forjassem grilhões e não laços, raízes e não ramos. Vendo meus amigos, sei que muitos deles sempre te olharam com desconfiança. Nunca puderam te enxergar como eu, porque afinal nunca te amaram como te amo. Não te conhecem pelos meus olhos. É que amam eles amiúde, promíscuos como os amigos são.
 
  Se hoje beijam mineiros lábios, amanhã já se deixam encantar por catarinenses verdes íris, transladando todo afeto sem jamais direcioná - lo a outro lócus que não seja o externo. Devo admitir aqui que os invejo por isso. E admito também que é hora de mudar, pois se de algo realmente sou carente é de me alijar. É duro, sei, mas devo  me emancipar. Ouço alguém cantar que "é necessária a nova abolição" e faço coro. 

  Parto doído sabendo que no entanto sempre terei em teu riso de mulher meu Porto Seguro, minha rosa dos ventos a nortear os passos meus. E onde quer que ande, aonde quer que eu vá, será sempre a você que sentirei na pele, sempre o teu cheiro que estarei sorvendo indiferente do jardim. Mas hei de provar outras delícias e descobrir novas geografias. Sei que ao voltar te encontrarei a minha espera, c'os braços abertos e o hálito frio que tão gostoso me arrepia a pele. É que me chega a hora de sentir na língua outro mel e outro leite. Mas sigo sempre seu

         
                                                      Amante

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Jovem incoerente





Por trás desta espera, não observo, sempre se desfaz neste esteio regresso, a palavra doce eivada em dilema, em ser o astuto, em obter o previsto. Quando o tempo estica os prefácios, o terreno desatina-se em erosão, aquecendo as palavras em berço oco.

Hoje, é mais um tempo, viciado dilema, quando parecia seguir, eis que apresenta-se pobre novamente, quando ha(via) estreitada juventude, angústia o deixara perdido novamente.
Sucesso quando jovem. Perdido como um velho.

Passado o sucesso prévio, me vem a mente uma mística anti-horária, perfazendo os sintomas de envelhecimento ativo, com membranas intuitivas, revestidas por barro e pavês de papel.

E esses caras que vocês enxergam grisalhos, não fazem parte desse arado fértil, independente disso... são elos andrógenos de um mesmo pires, escorregando mais algumas vezes.

domingo, 3 de junho de 2012

Feito tatuagem


 Teu carinho frio em minha pele é algo que não quero ter. Mas não posso evitar, nunca terei folga de você. Me retorce o senso tua rigidez de cadáver, paciência de angústia. E quando me chega ao ouvido teu clamor, estampido seco de repetição, mescla no peito o alívio com a crueza estranha desse assalto.

 Sinto correr um sangue que não é meu. Meu tão pouco é o gemido que ouço abafado entre teus quentes beijos. Vivo cenas de um filme, e o mocinho pouco ou nada ganhará no final.
Tateando minha cama a buscar - te, acordo encharcado entre os lençóis. Tudo por saber que mudou minha vida e já não há o o que eu possa fazer. Meus amigos me estranham, os familiares se assustam e sei que cego confio só em ti. Não que devesse, só não vejo outra escolha. Não vejo saída.

 Peço a Deus pra que um dia possa de ti me apartar, mas Ele nada me fala. Mais e mais sinto nojo de nossa torpe relação, pois que se me acolhes é que sabes: Não há em ti vida sem mim, enquanto és mero objeto. Até quando, é o que me pergunto. Mas não me diz nada.  

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Regionalismos endêmicos



Ver de longe a tua silhueta e saber que você não estã lá é uma dor gostosa e até engraçada. Os loucos dançam sozinhos no meio da rua. Eu te encontro, de novo e outra vez, noutros lábios e delícias que não te pertencem. É assim, sempre sobre você, passando por cima.

Sobreposições em desnível, como velhos ladrilhos de cidade velha: mova uma pedra, duas, sete pedras e tudo ainda estará lá. Como da primeira vez, como aquele antigo bar que foi nosso e que hoje nos é negado. Porque não é mais da gente. Não há mais a gente, sabe?

Sobram apenas os loucos que dançam sozinhos e falam de um amor que desconhecem. Cantam canções que não lhes pertencem, fora de hora, "brincando de papai e mamãe que se amavam livremente entre as flores". Esqueceram envergonhados como é "brincar de casinha" e embora desfrutem de leito sempre quentinho, estão constantemente sozinhos ao nascer do sol. Pior: sem Café da manhã.



        *          *          * 


Daí olho pro lado e te reconheço mais uma vez. Sinto que vai começar tudo de novo.
Mas talvez não. Essa pode ser só mais uma poesia sobre a gente, caso (ou nesse caso, casos - a cada vez um novo) muito específico. Mas talvez não. Talvez seja só mais uma poesia qualquer, de um poeta qualquer  esquecido num canto  de uma cidade velha qualquer.

  

domingo, 22 de abril de 2012

Soneto do ocaso

  













Teu batom já borrado
Tuas presas rasgadas
Como doces pegadas
No meu torso desnudo

Olho ainda cansado
Os espólios da guerra
Minha cara amassada
 E o teu hálito sujo

Tal qual Pedro e seu pé
Preto o peito que dou
O que posso e o que quer

Mal o galo cantou
Nem saiu o café
Alvorada chegou

quarta-feira, 21 de março de 2012

ORAÇÃO





O valor das coisas está no valor que a elas damos. Um livro roto cheirando a velharia, uma maçã meio mordida, um velho cacoete arremedado em carinhoso escárnio. Ou ainda um poema bobo, poema fraco, mas que é o teu poema. Poema todo teu. Pois vinde a nós o nosso reino e seja feita a nossa vontade (no princípio, agora e ) sempre. Esta seja a tua oração.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Quid Pro Quo

Dois, para mim, é barroco.

Hoje o dia é nublado e da tua cama não vejo nada além de cinza. Nas tuas costas, com a ponta de um dos dedos, escrevo um nome, que perpassa as dobradiças da tua janela e beija a boca quente de um passado nem tão passado assim - como um rabisco no canto de um papel em uma aula maçante; como uma inspiração notívaga, que por preguiça não tomas nota, na confiança de que no amanhã ainda viverá na memória.
Sempre vi vilãs as pessoas que me afligiam. Mas será que não sou eu o antagonista, vivendo da ventura do que sinto por dentro das calças?
A tua respiração me agulha como trompetes e fliscornes nos ouvidos de um cão. Cão que ladra na noite silenciosa para ouvir como resposta o eco de seu próprio latido. E assim fico, tentando fazer todo o céu lá de fora caber na ponta do meu polegar, enquanto o teu corpo me queima a pele neste frio cortante e o cheiro forte de suor do teu travesseiro me inquieta.
Ponho tudo em pratos limpos, faço a mesa, mas não quero ouvir o tilintar dos talheres. Porque me lembra uma festa que esqueceram de me convidar: um banquete para poucos, onde a essência tira o gosto de indústria dos alimentos, onde não há espaço para a sobremesa.
E como sói acontecer, parto, sabendo que voltarei, pois esqueci meus cigarros na sua varanda de onde me assistes partir sem um sorriso sequer.

Nada como uma boa desordem pondo as coisas no lugar!