quarta-feira, 29 de maio de 2013

Metamorfose Contemporânea

O mundo envelhece, muda e tudo o que foi deixado para trás supura na dor latente da evolução. Verteria o tempo se soubesse do seu fim? O amor é anacrônico; vomitado pelos homens de fé em seus anseios lascivos. A ciência, hoje o saber influente, esgarça as teorias de outrora para saber da prerrogativa celular de quem compra. A cultura é reproduzida in vitro. A diversão é paradoxalmente tediosa, perdida nos históricos hedonistas. O escapismo é tão alienado quanto a rotina. Só o sangue arranca aplausos no coliseu digital. Os caminhões, os carros... a humanidade anda em lento círculo autodestrutivo, de almas escamoteadas pela revolução tecnológica (Behemoth?). Já podemos mentir por entre as pernas. Os heróis tornam-se estéreis pelos transgênicos da Monsanto. As carpideiras ganham milhões. O calendário oficial agora é o do ano fiscal. E do nada vamos sendo reis, contemplando o cinzento céu do domínio, parindo proles do bem dotado capital.

Eu vi deus tropeçar numa imensa sala escura onde tudo o que amaldiçoava se tornava maior que ele próprio.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

(Pra desopiar) Em Terra? Nunca, Jamais!







Alguns Segredos, algumas ideias ou pensamentos, por mais bonitos que sejam, não merecem jamais serem revelados. Então o poeta os organiza e os mete todos numa caixa - bem mais simples do que se pensar pudesse - para ali mofarem puros e belos. Que jamais venham a tona. Que não sejam divididos.



Assim não fosse é bem capaz que deles restasse pouco mais que cacos. Isso a ninguém agradaria e, pior, se desvirtuaria seu real propósito. Repara então no que não é bem dito, Paulo, apóstolo do amor e da dúvida. Que fique a palavra não catada, mal forjada como escória fosse, ali num canto a toar uma balada surdo - muda vinda de remota caixinha de música, ó João.




Qual mensagem para ninguém numa náufraga  garrafa em banco de areia qualquer. E que, egolatria e egoísmo em sua mais fina flor, o poeta encerre em si tudo o quanto colheu de mais absurdo, sonoro e furioso do espetáculo que é aquela vida que jamais viverá.




sábado, 11 de maio de 2013

Agente equilibrado.




Peixoto foi curtir o carnaval carioca, gostou das pessoas, animou-se com a cidade, perdeu-se nas ruas fantasiado de bate-bola, vibrou com os concertos voadores, palavras de incentivo, cerveja espirrada e sorrisos saltitantes. Parou na esquina, realizou- se urinando; curvou-se, na espreita, por uma bailarina comediante, com um algodão doce em suas mãos. Desconfiou das falácias de um homem sóbrio, pediu a mão para levantar-se da rasteira que recebera, não foi nada, disse ele. Perto disto, vem uma onda, ele não impede que a mesma o leve para o caminho do ameno e sensato equilíbrio, sem estas calçadas mijadas, sem esse cheiro maroto solto, sem as conquistas vazias, sem desperdício necessário.
O mesmo homem que se mostrou valente, se torna o peso morto de outros tempos, perto da estrada infértil deve seguir. Descontrole é infame, inimigo da resignação de outrora.
É perto dela, na fila, na chuva, em uma casa ou naquele quarto úmido, morada anárquica da velhice solitária, encontro-me com as toalhas sujas que secam essas lágrimas jovens e caídas.
Longe do carnaval, Peixoto volta pra vitória, honesto, febril e cult. Bem-vindo, parasita da desordem, tomemos outro drinque para celebrar.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Paulicéia



É que Narcisa acha feio o que não é Espelho



  O beijo frio da grande metrópole me arrepia a pele. Me contraio até estar pequeno, contrito, compacto.
Submissa vadia, contorcido ante o peso de tudo que me é estrangeiro. Sou vadia mas gozo, entre a Paulista e a Virgem da Penha.


 Penha = Pedra

 Vadia = Rei

 Afinal, que rei? Tão diminuto e aqui fora tudo oprime. A arte do que é santo, a força somada de um povo ambicioso e curvado diante da cruz de quem almeja o ceu. Povo bruto que de fato nem percebe a alma que tem  - doces bárbaros. Um homem de preto passa displicente a despeito dos discos voadores. Ali pra frente , só o pó. Saudades de estar de preto.

 Luzes viajando na velocidade de uma esporrada e nas ruas, línguas ardem sem que se possam compreender. Poetinha. Poe. É... tinha. Fraco.

 Magnífico espetáculo, e eu, merda, não capto tudo. Nem jamais captarei. Indolente, então, ilhéu e preguiçoso, deixo isso aos que me seguirem.

Olhando o "jardim" do Patriarca foi que percebi.


Pessoas já disseram tudo o que havia de ser dito. O que dizer além de tudo isso? 


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Espetáculo (Show) da vida



  Esse mundo anda cheio de "gente", vejam só. Gente a rodo. Alcoviteiros aos montes. Gente que caga regras, aos baldes, mas que na alcova cava a cova de sua cuspida moralidade - descansada em requintado edredom - solapada na bela lápide que é a própria mediocridade.

  E você? é um homem ou um pássaro? Onde está a sua liberdade, aquela que estampava tua pele cálida, flanando ao sabor dos quatro ventos? Que tipo de gente é essa que passa os dias no delicado processo de maquiar a própria putrefação, bem vos digo:

  Somos zumbis. Amando romanticamente a já morta nobreza; louvando o deus morto (e minúsculo) do coletivo de pecadores (a que chamarei aqui "povo"); tentando conter os avanços do grande movimento retilíneo uniformemente variado que é a vida humana na Terra. Mas acima de tudo (e isso é o mais importante)  "vivendo" como analfabetos e "pensando" fora das aspas. Solipsando - se em todo e qualquer parentese.

Histeria e simulacro, os males desse mundo são.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Samba Criollo

 
 
 
 
 

A cerveja com outro gosto ainda é cerveja. Você sem mim ainda sou eu um pouquinho.
 
Mariposas dançam na sala de estar aquele esbaforido minueto: polegar, indicador, médio, anelar. Indicador, Médio, Anelar, indicador. Enquanto isso, crianças derramadas choram no leito quente do asfalto.

Estão atônitas ante o espetáculo do absurdo que é o carrossel apagado de suas tão curtas e amáveis (ainda que não muito fascinantes) alheias vidas. Nuvens passam -  brinquemos, Nuvem! 

Deixemos de lado a angústia, a dor e a certeza da dúvida (benefício? pffff). Por essa noite, pelo menos. A mariposa de sonho vem afinal repousar vadia aqui em meu peito.

 
 
"Aqui, ninguém vai pro céu"

terça-feira, 16 de abril de 2013

Amor goxtoso





Primeiro pense no ser humano, disse ela, depois projete esse ser humano em um território destrutivo, posteriormente monte seu roteiro de destruição, depois disso aguarde pela parte que nos toca, pense no coletivo, disse ela, como meio de vida, ache seus tostões e use-os para sua destruição e a destruição alheia, perverso! disse ela, depois vem a dúvida sobre alma e tendências masoquistas de religião. Da cozinha, com um cigarro em bocadura, vem ela.

                                                                ….......................................


Lata, estarei aqui, sempre por aqui, dentro de você, perdido desde a última tampa, desde o cheiro fino no metal barato, serei seu intestino e coração, sujando e sendo sujo, patriarca desse prazer de ficar a mercê do razoável, com todo esse amor lindo, com todo amor do nosso mundinho fechado, como? Com todo amor, minha linda, com muito, muitíssimo amor.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A novela do Malandro - Cap. 3


                      " ... Só não solte este pum enlatado em meu nariz, pois se sim, nosso amor acabará"


No intestino desta ilha, fredo sentia o vazio que o assolava, vazio este que era comum em sua geração, não por causa do caos ou “caôs”, não por causa do mal que a idade tráz, não por conta do egoísmo hereditário catedrático, mas sim pela dor do que veria com olhos de quase cristão, quase alguém, quase membro, quase irmão, eis que surge confusão, surge falta do que e de quem ser.
Mais uma falta esconde seus versos torpes em rodas de bar, não parece mais daqueles homens inúteis, sem alma... ele está pronto para o vazio.

Aquela personalidade variável, pertencentes aos mais espertos, não encontra a dor em qualquer tempo, essa verdade ainda esta por vir. Fredo, em contra partida, percebe que o caminho a ser tomado sempre se transformará em absolutamente nada. Perto desta celeuma, todavia, distante, na av. Fornecedor, Fredo encontra Amena, com ela ele se sente mais seguro, acariciado sob o seio maternal, imerso em universo sem efeito colateral, digno pra caralho e puro.

Continua...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A novela do malandro - Cap. 2





Em 1910, com sua libido em alta, o contraditório menino não se sentia tao jovem assim, ao contrário do que a ereção perene predizia. Fredo era unilateralmente convicto de suas decisões, funções e desvios.
Passado anos, o mesmo dizia ser filho de humildes fazendeiros, moradores de Iraruana, cidade pacata, vizinha de Sta barbara, aquela bela cidade, que os moradores faziam compras em mercados precários, com bosta de cavalo por toda parte. O perto de lá, era a distancia daqui. Em Sta. Barbara, Fredo morou anos com sua avó, mulher sorrateira nas perguntas certeiras, a complexidade das palavras de dona Tildes, deixará fredo mais esperto e atento com a literatura brejeira que estava por vir.
Passado algum tempo, Fredo não sossega em Sta barbara, se muda da cidade, ele quer cair, ele quer ser, ele quer se levantar.

Quando desembarca na cidade com diminutivo carinhoso, Fredo resolve realizar um sonho do pai, formar-se na universidade. O pai, austero e tecnicista, resolveu deixar seus sonhos de lado, preferiu ser o provedor padrão, alienado e católico. Fredo, com a alcunha dos ébrios e esquiadores de plantão, forma-se com louvor... e em pouco tempo, tornasse um dos maiores alcoólatras desta ilha.

Continua...

segunda-feira, 25 de março de 2013

Novela do malandro - cap. 1



                                            'Igualdade moderninha é melhor que a realidade'


Godofredo era um jovem típico, alvissareiro intelectual, habitue do circo cult boêmio, de uma capital que segue sina de ser apelidada com diminutivo carinhoso. Conhecedor assíduo da palavra e dos martírios: amor, capitão do desastre, navegante embarcado em sonhos distantes, desde maremoto a tsunamis. Fredo, diz: “ Veja só, não se sabe o motivo, apenas sabes por quem eu vivo, por você, marmita: morna ou fria”.
- Vejo o cinzeiro cheio cinzas. como vai com a birita? Acabou? Ou resta algo em seu fim?
Depois dos devaneios, segue a estória...

Godofredo, tem seu sistema límbico abastecido por um forte fornecedor de vulvas russas, que servem como peça de provimento emocional e sentimental acendendo o modo on de existência. Sendo este, seu único fornecedor. Era um medo.
Andava pelo tempo praticando esportes de raro costume pra sua época, sempre equilibrando seu cigarro, quando sim e quando não, um copo de cerveja. Orientava-se pelas sombra das luzes dos postes (com mérito, pois pagava pela taxa de iluminação pública sem atrasos) pela madrugada calorenta, mas pra ele, sempre fria e esfumaçada.
Certo dia, conheceu Amena, uma jovem mulher, não tão jovem assim, não tão amena assim. Entretanto, Amena emanava a paz necessária para a sobrevivência na terra, contudo, a paz esbarrava em aleatórios problemas com o passado, com o presente e com o futuro...  

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sono

 Life is not forever(yone)

O som do despertador, para mim, é sempre uma alusão a gemidos infernais. Odeio acordar cedo. O relógio grita a hora mais imprópria; a do atraso. Tudo é tão pouco perto do não visto. E será que verei, em meio as sovas do tempo que abre o olho roxo do destino, a vala comum dos nossos corpos mortais? Afinal do que somos feitos senão de sonhos finitos?
No caminho para o trabalho um homem brada dentro do transporte público que vê a multidão, mas se sente só. Ele ainda acrescenta que somos espécies sinantrópicas da nossa própria solidão.
O mesmo homem ao fitar o meu desgosto - estresse usual - me fuzila com seu dedo indicador e diz:
 - Enquanto você finge que me ouve, os cofres estão cheios de contradições, a educação não salva mais a alma do inquieto, os rombos fiscais são vistos inimigos maiores do desenvolvimento. Mas só te vejo aí, sentado. Julgo-te oco por vontade. Tu és mentecapto por comprazer. Um dia encontrarás a redenção da tua vida num tropeço de uma mesa de bar ou num beijo qualquer. Aí então, meu desalmado rapaz, tu estarás aqui em meu lugar.
E ele continua:
- Creias que eu seria o primeiro a defender a tua essência se eu pudesse vê-la. Foste plasmado por um deus carnavalesco e egoísta. Tu viste o pão folheado a ouro na apoteose? Tu vês as tuas mãos sujas ao pô-las na consciência enquanto esperas por súcubo - aqui uma livre interpretação - na noite, para te (t/d)omar a vontade? É, o amor deixou de salvar a vida, Neruda não faz mais sentido para você.
Conclui então o homem dando tapas em sua própria face:
- Acorda! É difícil. Vai ser foda. Mas vai ser! Pois eu sou também você, por quem os sinos dobram!
De mesmo modo me pego esbofeteando a cara, enquanto os sinos dobram, dobram... o despertador toca, toca... e eu não consigo acordar.

sábado, 2 de março de 2013

Dicotomia da fraternidade humana, seus ensinamentos sistemáticos e morosos.



Você acha pouco eu acho nada, fulano acha um tanto, sicrano acha raso, camila acha tosco, Wanize acha um saco. Carlos acha bonita e se casa, Vitor acha Feia e rechaça. Maria quer na vida o tijolo perfeito que preencha o seu amargo vazio sentimental, Alberto vive a vida curtindo os adocicados predicados da carne. Denise curte sexo descompromissado ao luar minguante tomando sangria, Marcílio é passivo e gosta de sexo anal. Beatriz se acha atriz e supera as expectativas da superficialidade artística dançando balé. Vilmar trabalha como ajudante de obras, demolindo casas, para que a cidade fique cada vez mais verticalizada.
O professor aplica aula por dinheiro, o aluno quer aula por cultura, Adélson quer ensino profissionalizante, Matias quer livros inquietantes. Josias pinta barcos de pesca e mora em um barraco, enquanto sua filha de 13 anos esta grávida pela quinta vez; Eva suspira os tons de cinza de baixo do chuveiro, degustando cada palavra, assim como Nelson Rodrigues degustara cada trago de seu cigarro.
Peixoto veio curtir mais um dia de carnaval, acompanhado de sua esposa e filhos. Alugou um apartamento em um balneário capixaba, deleitava-se na praia logo cedo. Jogava frescobol pela manha e futebol ao entardecer, depois de uma prosa metereológica, com o porteiro Tião. Mano Yamada, sempre cometendo os mesmos redundantes equívocos, e encontra mais um poste como aliado, para mais uma golfada. Foi uma noite, passou dos limites, com o sorriso largo e os copos cheios, mais uma droga, mais uma esbórnia, no entanto ele tirou férias da vida, ele pode. Você não há de negar, a vida que deixei é muito mais bela do que está por vir, não faz sentido, ninguém aprende nada, apenas o medo, nasce uma espinha na pálpebra da coragem, não mais orientada, só mais uma vida. Apenas curta encurtar essa vida. Odair José, soa fúnebre e datado. É a forma de amor pra quem quer apego meloso, sistematizando as tendencias, colidindo em torpes pensamentos brejeiros, translucidando paixões pela estampa da existência amorosa, constritiva e conflituosa. Hoje é a morte de mais alguns e a sobrevida cotidiana de outros tantos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Colcha de retratos



    Porque mais alguns passaram sem parecer que eram 30. E outro mais se acabou sem quem dissesse "faltam ainda mais 10"  e o passado, encarado aqui de onde estamos, cheira estranho e alheio - como não fossem seus o mel e o fel.  Como se a outrem tocasse.

   A gravidade te prende ao chão. Ah! como era bom ignora - la! Mas nada que se conheça, uma vez guardado, se pode arrancar do esquema ao qual pertence: seu lugar na malha das parcas. Então guardo seus beijos mais molhados. Dobro os gemidos mais suados, o palpitar mais suave, seguido de inesperado espirro. Ponho tudo numa caixa que, um dia talvez lhe envie. Tenho o cuidado de não vincar o tecido que cosemos com unhas e dentes e pêlos.

   Os louros ainda esperam, sem saber que já ninguém lhes há de colher no encantado descuido de um bucólico pastor de ovelhas. Não há mais  espaço para romantismos, você sabe. Ao longe uma pequena ninfa sopra em desafino desgastada flauta. Belas odes já lhe acompanharam; dela, lindas melodias já brotaram, doces como o quê. Ou quase.


   Mas as notas agora só vem mesmo do burocrático relógio pregado na parede da cozinha. Conforme os tics convertem - se em  tacs, mais apáticos ficam os homens. Menos viçosas as mulheres, as coisas. Bem, as suas miudezas ficarão na caixa, já que não sei aonde ou como endereça - la. E servirá de apoio a despojadas vestes, em noites suadas e afoitas, embalagens de presente a se espalhar pelo chão do quarto.

Esse não é um poema de amor. Essa não é uma data especial. Esse não é senão o m'Eu lírico. E isso é a verdade, somente a verdade, nada a mais que a verdade.



Pode rir agora

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Falta da Falta


Os que me ensinam têm de me aprender

Quando falta energia na casa, todos vão para a varanda - longe da modernidade eletrônica que suga as baterias Zeitgeist do ser - observar o que estava escondido por trás de tanta tecnologia, ter aquela conversa que não se tinha há tempos com seus amores.
Não sei se é uma coisa endêmica dessa casa ou se todo mundo possui esse vestido que os cabe nesses momentos ímpares.
Se noite - Ah! - o rastro de prata que a lua deixa no mar lançava-os ainda mais compassíveis. E à luz de suas vulnerabilidades falam sobre a vida; o muito que ela dá, o muito que ela tira.
O pai relembra sua juventude onde o seu hobby predileto era no verão sentar em um banco de uma praça e admirar as senhoritas com seus vestidos floridos, compondo canções em nome das mesmas com o seu bom violão que hoje é só composto de muita poeira no canto do seu quarto. Declarações poéticas tais que por tabela ajudaram o jovem pai a conquistar a mãe num desses seus brios de romantismo.
A mãe reforça alguns de seus conceitos; que sob esse mesmo céu somos apenas um; que as catástrofes naturais todas são a própria natureza citando o divino para justificar seus atos; que nós humanos sentimos tanta culpa de sermos o que somos que prevemos um fim do mundo a cada passo; que temos almas de deuses em nossos corpos mortais e vai ver que a arrogância vem daí. "Pedimos a mão segurando-as pelo pulso". A hermenêutica da mãe sempre foi extraordinária, no entanto, ela só estava naquele momento com ciúmes das antigas composições do pai.
A pequena filha descobriu que goiaba em inglês é guava. Fato mais que suficiente para arrancar elogios de todos e um sorriso de seu rosto.
O filho reflete sobre amores tropegos e insolúveis: viu as marcas dos pés dela na parede próxima à cama. Disse que a função do conceito sobre ela é ditatorial, oprime qualquer outra. Falou também que o barulho que o assoalho da casa fazia quando a mesma andava por alí era distinto. "Ela deveria ter vindo com o aviso: Perigo, inflamável" - ressaltou o jovem. A mãe, sobre isso, disse da abstinência não ser química e sim anímica. E o pai qualquer coisa sobre escrever uma canção.
E a fleumática avó, que até então nada havia dito, tácita em sua resiliência, se apronta como quem proferirá algo solene - quiçá podemos imaginar um piano clássico ao fundo como trilha sonora. Todas as atenções voltadas para a velha senhora que já viu tanto de tudo. Ela olha para todos e, ao assentir com a cabeça, diz: "A luz voltou a essa casa!"
De fato a energia retorna e a gargalhada é uníssona.
Então, assim de ironia ausente - talvez amaldiçoada pela radiação do microondas - regressam todos aos seus afazeres dantes do blackout.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Olá coxas de bela donzela! (ou monólogo poético de um último romântico)






  Olá belas coxas de jovem donzela! Nossa! Há quanto tempo! Como vocês cresceram! Tão durinhas, pero sin perder la ternura... Por onde andaram? Onde estiveram vocês, então tão branquinhas, que hoje  me aparecem tão moreninhas e queimadas de Sol! 

  Vocês tão roliças, sempre tão doces, mesmo quando salgadinhas dos calores vespertinos que escorrem sem pressa... Coxas nuas, tão carentes dos carinhos meus, tão vistosas e muito cobiçosas. Coxas de luxúria, Blancos muslos de ayer que palpitações profanas me trazem na circulação. 

 Há tempos não via suas graças rotundas e, quando cantos noturnos lhes rendo, são esses de core. Lembrança apenas de meus dedos passeando onde nenhum homem jamais ousara (e onde eu mesmo não alcancei ainda na minha triste e hirsuta vigília).   Mas eis que me dão as costas em fingido sinal de desprezo. Oh, Lindas coxas!

  Que passa convosco? Porque tão concisas, fechadas, ora? Sejam mais maleáveis, por piedade. Ou antes não. Continuem assim, moreninhas e carnudas, firmes de tudo que sigo de tudo um seu asceta, ainda que de mim andem tão longe. Continuo esperando vossa volta, ansioso e obstinado, as espero em pé. É. Pensando melhor, espero sentado. 




terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Parabéns, Malandragem!

No última dia 4 o Malandragem Inquieta fez 2 anos!
Em lembrança ao fato solene, uma frase do Millôr:
"A malandragem é a arte de disfarçar a ociosidade.”

E uma música mais que simbólica:


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Alma Jovem, corpo cansado.





Passeando pelas bordas das únicas casas de entretenimento do mundo; encontro adultos, adúlteros, crianças- adultos, um espirro, uma sambada, uns geeks, outros rins, outros riem, alguns criam caráter, outros riem do caráter, vários pecam no caráter, outros cagam para o caráter. Hoje, morrem mil caráteres e nascem outros caráteres, partes desta ignição, se formam e se agrupam em reação, como corpos emoldurados, cabeças decepadas em estado de transformação, sem estágios pela frente, com o peso de sobreviver. Esses morrem, jovens velhos a procura do que fazer, pra quê fazer?
Outros são jovens, moleques. Mostrando no que fazem, um direito de marcar como bois um slogan do que são, tão perto, tão distantes, dos que pra eles não são, entorno desta rixa, é apenas mais uma bicha.
Nesta espera, eu procuro você, como um lado bom desta mania, como um estado puro desta angústia, inevitável morada, me perco, não sou tão bom nisso, quero apenas viver.

Jovens criativos pensam, mas são apenas um devaneio flutuante. E o adulto? É apenas mais um apreciador de Cerveja Pilsen.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Quatro - dois



  Branca, branca, branca. As palavras não são minhas mas divido o torpor verborrágico de poucos sons e a hemorragia do Chico em todo seu estupor. Vivo agora flashes de toda minha vida repartida no espaço nu desse corpo lindamente angulado em meu leito. Não sei o que faço, ou como faze - lo. Sei tão pouco o tanto que me faz bem. Não estou triste, senão confuso. Também pudera...



  Estampado na pele traz - se o signo duma oração velha como a vida e repetida no calor monossilábico de lascivos cultos pagãos rendidos a uma divindade distante. Por muito pouco não tomo parte do que me apetece desse hino, sonho de Brahma. Frequência perene por breve que pareça e seja. Mil anos em um dia e um dia de cada vez, ah! Que assombroso é o amanhã! Bravo Mundo do Amanhã!



 Há grande medo do que não se conhece. Pois só se toca o hoje, que ele agora está aqui. Por hora é tudo. E  basta. Na picardia urdida em teu nome, com o qual brinco (sopa de letrinhas a desenhar teu DNA), repito em surto o curto som de você na minha boca, escorrendo na língua, descendo no peito até de uma vez vibrar teu gozo.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Transladar Revisitado


  A verdade no vinho é o prazer no álcool que, absoluto, te hidrata as feridas e que o juízo te acalma. Tudo   então é mais bonito, é mais viço e mais claro. Não que de fato seja e nem que a você de fato importe.

Quando o Mundo se aproxima da hora de girar para dentro do próprio umbigo outra vez mais, a sede do espetáculo parece secar te a garganta. Aí o que era tão fácil engolir, por pequeno e tacanho, te coaxa traqueia abaixo, arranhando - te ali onde ninguém pode ver.

*     *    * 


 Não careço de platéia mas aceito o teu aplauso. Teu abraço seco e frio. Teu cinismo puro e crasso.
Dou - te em troca meu quente regaço - tão oco quanto posso - em todo o muco que mereças me sorver extasiado. Pois que chupe, aos canudinhos, q os beiços molhe entorpecido, fácil.

*    *    *

Sei que nada mais se pode esperar, tudo é urgência! E eu aqui parado. Gira a vida, rodopia, as pernas trançam - se e o baile segue tocando. Ninguém ouve o dobrar dos sinos, mas eles lá estão. O pensamento segue embargado e os poetas cantam o sonho mudo da rotina em devassa. 365 dias lhe caem de novo sobre as costas com a velocidade efêmera do gozo. E é bom. O gozo sempre será bom, ainda que doa em pus e sangue. E tudo já começa de novo.


Não existem palavras bonitas ou feias. Lépidas ou fartas, no final, são só palavras 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Por Mais Forte Que Seja

"Você tem medo de deus?
Não, mas eu tenho medo de você!"


Esse diálogo se põe logo após um intercurso sexual:

 - Hoje é ano novo!

 - Feliz aniversário, Mundo. Exceto para algumas culturas como a judáica ou a chinesa, por exemplo.

 - Nossa, como você é insensível!

 - Insensível, eu? Você se esqueceu de quando caminhávamos durante 15 minutos quase todos os dias por um ônibus à beira-mar por conta da vista?

 - Eu é que te forçava a ir comigo. A idéia foi minha!

 - Não importa.

 - Claro que importa! Vamos dividir um cigarro?

 - Eu não fumo e tu sabes disso.

 - O dia está lindo lá fora!

 - Lindo? Não compactuo com esta tua filosofia aristotélica.

Ela põe os cabelos atrás da orelha como quem se prepara para uma guerra certamente desacordada com as convenções de Genebra e Haia:

 - Você nem reparou que cortei os meus cabelos!

 - Não. Seus olhos precisam de legenda neste momento. Qual o seu problema?

 - O meu problema é o teu estado abúlico e evasivo!

 - É que o mundo não acabou.

 - Parece que o cinismo te abandonou por um instante! Você realmente acreditou nessa profecia antiga?

 - Não. Acredito no fim quando não mais houver tão bela distração como este teu corpo vivaz. Mas eu tinha uma parva esperança de como quem sonha com um brinquedo que o pai não pode comprar.

 - Eu te amo!

 - Não. Eu te amo. E acho que esse é o problema.

 - Como assim?

 - Talvez seja a diferença de idade, mas nunca me amaste.

 - Como não te amo? Sempre nos imaginei pelas ruas com os nossos filhos em bolsas canguru!

 - Suas expectativas românticas parecem tiradas de filmes e livros ruins.

 - Quanta jactância!

 - A beleza é vista com a fé que não possuis.

 - De onde vem tanta indocilidade?

 - 23 de junho, presumo.

 - Ah, esse maldito dia! Já não havíamos esquecido isso?

 - O ser humano parece se empenhar mais quando o projeto é a destruição. Uma vida para construir, segundos para destruir.

 - Já te pedi desculpas. Viramos essa página!

 - Não quando casas com outra pessoa.

 - Tem razão. Nos veremos outra vez?

 - Não serei teu amante.

 - Dispensamos os adeuses?

 - Sejas feliz.

 - Não serei!

Quando o relógio em cima do criado-mudo parte o dia ao meio, ela parte com tudo que antes fora inteiro e seu pensamento mais recorrente é sobre a prestação que quitará a casa de praia para o veraneio.

http://eumechamoantonio.tumblr.com/